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SW19 pode virar RF19
Por José Nilton Dalcim
14 de julho de 2017 às 15:21

Um dos mais conhecidos endereços de Londres, Wimbledon poderá rebatizar a tradicional zona  SW19 a partir deste domingo caso Roger Federer consiga mais um feito gigantesco na sua carreira. Pela terceira vez desde a última conquista, em 2012, ele está final do mais prestigiado torneio do tênis com direito a sonhar com o feito inédito do oitavo troféu em Wimbledon e, de quebra, o 19º troféu de Grand Slam.

O suíço vem dizendo desde o começo do ano que seu grande objetivo da temporada é voltar a ganhar no All England Club. Sacrificou até mesmo toda a temporada de saibro para isso e portanto não poderia estar mais satisfeito. Passou por seis adversários sem perder set, venceu todos os quatro tiebreaks disputados, e sabe que pode contar maciçamente com a torcida.

A menos de um mês de completar 36 anos, ele poderá também voltar no tempo, lá para 2009, última temporada em que conseguiu conquistar dois Slam, então Roland Garros e Wimbledon. Caso consiga, se candidatará de vez a brigar pelo número 1 do mundo contra Rafael Nadal, quem sabe no US Open. Ele pontuou o ranking pela última de 302 semanas em novembro de 2012.

Como era previsível, Tomas Berdych deu muito mais trabalho do que Milos Raonic. Além de ser grande sacador, prefere ficar na base e usou sua pesada bola para equilibrar todos os sets. Não se pode dizer que tenha jogado mal. Tentou de tudo, chegou a ir mais à rede do que o próprio suíço num jogo decidivo em pequenos detalhes.

Caberá então a Marin Cilic a tarefa de impedir a história em Wimbledon e escrever outro grande capítulo de sua carreira. O croata de 28 anos sofreu muito depois de surpreender o mundo e levantar o US Open – com vitória aliás na semi contra Federer -, tanto com a cobrança como com problemas físicos, mas é inegável que possui o estilo ideal para o tênis moderno, moldado também em grande saque e golpes fortes do fundo. No ano passado, esteve a um set de eliminar Federer numa batalha inesquecível sobre a grama londrina.

Acima até mesmo de seu poder de fogo técnico, Cilic talvez tenha feito um torneio impecável muito mais na questão emocional. Encarou adversários de gabarito, como Philipp Kohlschreiber e Florian Mayer, muito respeitáveis na grama, assim como Steve Johnson. No duro duelo diante de Gilles Muller, saiu atrás e nunca se afobou diante do estilo difícil do canhoto voleador. Nesta sexta-feira, fez uma batalha game a game contra Sam Querrey e novamente achou o caminho da virada.

Com as quedas de Andy Murray, Novak Djokovic e Rafael Nadal, não tenho a menor dúvida de que Cilic seja o adversário de maior qualidade que Federer poderia encarar neste Wimbledon.

O sábado
– Qualquer que seja o vencedor, Wimbledon verá a 14ª diferente parceria a vencer nos últimos 16 Grand Slam disputados. Nesse período, apenas Soares/Murray e Hughes/Mahut repetiram um troféu.
– Melo tem um título em Roland Garros, Kubot já ganhou Austrália. Pavic é o segundo croata na final deste Wimbledon, seguindo Cilic.
– Venus Williams e Garbine Muguruza duelam às 10 horas. A norte-americana tem 3 a 1, com vitórias no sintético e derrota no saibro.
– Será a 16ª final de Slam de Venus, que pode se tornar a mais velha campeã de Slam da Era Profissional, aos 37 anos e 29 dias, se atingir o hexa.
– Muguruza é orientada justamente pela última espanhola a ganhar o torneio (Conchinta Martinez, em 1994, em incrível vitória sobre Navratilova). Soma apenas três finais de Slam e quatro troféus em toda a carreira.

A um passo da glória
Por José Nilton Dalcim
13 de julho de 2017 às 19:09

Suado, sofrido, arrancado. Marcelo Melo e o polonês Lukasz Kubot viveram a terceira maratona, mostraram como estão com a cabeça em dia e com máxima justiça avançam à final de Wimbledon. Sábado, Girafa irá tentar realizar pela segunda vez o maior sonho de sua vida e coroar o retorno ao número 1 do ranking. Em 2013, ele e Ivan Dodig perderam de virada para os irmãos Bob e Mike Bryan.

Incrível como Melo e Kubot foram se entrosando ao longo da temporada. Começaram tímidos, quase desfizeram a parceria, mas decidiram se dar outro oportunidade, treinaram duro e a história começar a mudar com o vice em Indian Wells. A confiança aumentou tanto que veio o título de Miami, um piso até lento para o estilo dos dois. Foram ao saibro e faturaram Madri. Quando chegaram à grama, tudo se encaixou de vez. Marcelo, que jamais havia erguido um título na superfície, está na terceira final seguida, invicto a 13 jogos.

O mineiro de 32 anos e 2,03m disputará a 67ª final brasileira de nível Grand Slam em busca do 33º título. Se eliminarmos os juvenis da conta, são 29 conquistas em 50 decisões já disputadas. Dois fatos são curiosos: graças a ele e Bruno Soares, hoje o Brasil tem troféus de duplas masculinas em todos os Slam, exceto Wimbledon; e também por causa dos mineiros, somamos hoje troféus de simples, de duplas e de mistas na Austrália, França e EUA, novamente faltando a grama britânica, onde apenas Maria Esther Bueno brilhou até hoje.

E olha que nossa chance de faturar mistas está grande. Soares com a ótima parceira Elena Vesnina e o gaúcho Marcelo Demoliner junto à competente Maria Jose Martinez estão em semifinais distintas, podendo até fazer uma decisão entre brasileiros. Seria um sábado inesquecível.

Quem quiser ver a lista completa dos brasileiros que já fizeram finais em Grand Slam, clique aqui.

Feminino tem final perfeita
As duas semis femininas foram diferentes, porém ambas muito mais rápidas do que se esperava. O domínio de Garbiñe Muguruza sobre Magdalena Rybarikova foi tão absurdo que o público precisou torcer para a eslovaca ganhar games. A espanhola está muito solta em quadra e jogando seu melhor tênis desde a conquista de Roland Garros do ano passado. Agressiva, com bom saque, arriscando da base e indo muito à rede. Quem a visse pela primeira vez, acharia que nasceu em Londres.

Venus Williams e Jo Konta fizeram um belíssimo primeiro set, ao feitio da grama. Forçaram saque, bateram reto, tentaram deslocar a adversária. A britânica teve uma chance importante no 4/4 e daí em diante caiu de rendimento. Venus não tirou o pé do acelerador, fechou o set e se manteve compacta, com direito a usar até mais topspin do que o normal.

Wimbledon tem tudo para ver uma tremenda final no sábado, daquelas de ir para a história. As duas parecem confiantes e são cheias de experiência. Muguruza perdeu a final de 2015 para a outra Williams e de certa forma pode jogar mais solta, colocando responsabilidade sobre Venus, que tem uma chance única de voltar a ganhar Wimbledon e um Grand Slam depois de tanto tempo.

Por mais maluco que possa parecer, Venus pode até mesmo entrar na briga pela liderança do ranking em caso de título. Subiria para o quarto lugar, com 5.161 pontos, nada distante da líder Karolina Pliskova, que estaria a cerca de 1.700 pontos. A espanhola irá recuperar o quinto posto com eventual conquista.

As semis masculinas
– A última vez que todos os semifinalistas de Wimbledon estavam fora do top 4 do ranking foi em 2003, quando o mais alto classificado era o garoto Federer, então 5º.
– Federer tem 18 a 6 diante de Berdych, com sete vitórias seguidas. O último triunfo do tcheco foi em Dubai de 2013. Mas ele já ganhou do suíço nas quartas de Wimbledon de 2010.
– Suíço tenta a 90ª vitória e, se fizer a 11ª final em Wimbledon, será o segundo mais velho. Em 12 semis no torneio, ele só perdeu uma vez, a do ano passado.
– Berdych tenta repetir Lendl como únicos tchecos com duas finais em Wimbledon. Em Slam, ele está atrás de Korda, Kodes e Lendl. Jamais na carreira, Berdych venceu três top 10 seguidos (Thiem e Djokovic os outros).
– Cilic ganhou todos os quatro duelos contra Querrey, três deles na grama e dois em Wimbledon (ambos decididos no quinto set).
– O vencedor será o tenista profissional que mais edições disputou até chegar na final: Cilic está na 11ª e Querrey, na 10ª. O americano também igualará a marca de Ferrer em Slam, com 42 tentativas.
– Ivanisevic é único croata a disputar mais de uma final de Slam (foram 4, todas em Wimbledon).
– Último americano a decidir o torneio foi Roddick, em 2009 (batido por Federer).
– Querrey é o sétimo tenista a ganhar três jogos seguidos no quinto set em Wimbledon. Ninguém ganhou quatro partidas.

O físico decide
Por José Nilton Dalcim
12 de julho de 2017 às 19:00

Três das quatro partidas da reta final da chave masculina de Wimbledon tiveram um componente essencial: o físico. Novak Djokovic sucumbiu ao problemático cotovelo e nem completou dois sets, Andy Murray se arrastou na metade final com o quadril dolorido e cara de choro, Gilles Muller ficou sem pernas ao fazer seu 26º set (incluindo duplas) em 10 dias.

Não se pode nem de longe tirar o mérito dos vencedores. Tomas Berdych, por exemplo, fazia uma atuação muito decente, indo à rede, batendo pesado e usando até drop-shots. Sam Querrey esteve nas cordas e deveria ter saído derrotado em três sets, mas elevou o nível na hora necessária e calibrou o saque de forma notável nos dois sets finais. Marin Cilic precisou de todos seus recursos, obrigado a devolver firme o tempo inteiro, arriscar passadas, buscar bolas baixas. Ousou, fez saque-voleio e se valeu de estar bem mais descansado na parcial derradeira.

A desistência de Djokovic, minutos depois de ter solicitado assistência médica, como já fizera contra Adrian Mannarino, frustra quem esperava o reencontro com Roger Federer, principalmente porque o sérvio havia feito jogos consistentes na primeira semana, mostrava-se animado e não havia perdido sequer sets. Vale lembrar que o cotovelo está atrapalhando a vida de Nole há mais de um ano. Na grama, em que se golpeia a bola dezenas de vezes fora do local ideal, a chance de machucar antebraço e cotovelo se potencializa. Na entrevista, deu a entender que vai precisar de um tratamento longo e profundo, o que pode gerar uma ausência.

Murray, que mais uma vez não defende seu troféu em Wimbledon, também leva para casa dúvidas preciosas sobre seu futuro. Todo mundo sabe o quanto a contusão no quadril é grave e muitas vezes obriga cirurgia e atrapalha carreiras. Nem vamos lembrar aqui os casos de Guga Kuerten e Magnus Norman. Pode ser que o desgaste tenha sido em função do saibro, que Murray tanto acusa de lhe causar desgaste. Tomara.

Federer desfila na Central
Recuperado do resfriado e livre do fantasma do joelho, Roger Federer assombrou novamente com uma atuação magnífica na Quadra Central. Fez dois sets incrivelmente eficientes diante de Milos Raonic, em que agregou os dois pilares da grama: defesa sólida, seja na devolução de saque, seja nas passadas, e ataque volumoso, com primeiro serviço afiadíssimo, voleios oportunos e golpes de base profundos. Se seus maiores concorrentes sofreram com o físico, Roger flutuou.

Raonic fez o que podia. Foi à rede atrás do saque o tempo todo, sabedor que teria mínimas chances se ficasse atrás. Não desanimou mesmo com tanta bola no pé que levou e poderia sim ter levado ao menos o terceiro set, seu melhor momento na partida. Mas deixou escapar cinco break points, quatro no oitavo game, e uma vantagem de 3-1 no tiebreak. Federer então reagiu com direito a espetáculo e fechou a partida com lances magníficos, mostrando leveza nas pernas.

Não há dúvida que encarar Berdych na sexta-feira ao invés de Djokovic seja muito melhor. Tem 18 a 6 nos confrontos, com duas vitórias neste ano em torneios que levou o título (Melbourne e Miami). No entanto, existe agora um favoritismo absoluto do suíço para ganhar o octa e o 19º Grand Slam diante do currículo tão inferior dos concorrentes, o que nem sempre é um trunfo.

Cilic tem feito um grande Wimbledon e ainda leva histórico de 4 a 0 sobre Querrey, enfim em sua primeira semifinal de Grand Slam. O croata curiosamente ganhou três desses jogos sobre a grama e dois deles em Wimbledon, porém em cinco sets duríssimos. O americano não pode ser menosprezado. Embora ambos prefiram ficar no fundo da quadra atrás de bombásticos serviços, são jogadores bem completos e podem alternar com jogo de rede. Não por acaso, são bons duplistas também. Talvez Cilic sinta-se mais à vontade numa eventual final de tamanho peso, já que experimentou isso no US Open e foi muito bem.

Brasil torce por Melo
O tênis brasileiro pode ganhar duas boas notícias pelas mãos de Marcelo Melo. Se ele e Lukasz Kubot vencerem os cabeças 1 nesta quinta-feira, o mineiro retomará a liderança do ranking individual de duplas. De quebra, estará em sua segunda final de Wimbledon e poderá no sábado realizar seu maior sonho. Wimbledon é o único Slam em que jamais um brasileiro ergueu troféu entre os adultos. Todas as glórias vieram com Maria Esther Bueno.

Ele e Kubot já fizeram dois jogos duríssimos nesta edição, escapando da queda inesperada. São dois jogadores que adoram jogar na grama, um piso que confere poucas oportunidades e exige tremenda concentração. Kubot está devolvendo muito, Melo se mostra incrível junto à rede. E melhor ainda: a outra semifinal tem duas parcerias de currículo muito inferior.

Bruno Soares e Marcelo Demoliner também estão vivos e nas quartas de duplas mistas. As parceiras são ótimas duplistas, com destaque para Elena Vesnina, a mesma que levantou com Bruno o Australian Open do ano passado. Por fim, a juvenil Thaisa Pedretti sobrevive nas duplas e num piso tão difícil para seu estilo.