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Constrangedor
Por José Nilton Dalcim
4 de julho de 2017 às 18:05

É compreensível que um tenista de nível top 100 queira a qualquer custo disputar um Grand Slam, ainda mais Wimbledon, e embolsar um nada desprezível prêmio de consolo na casa das US$ 48 mil. Mas há alguns extrapolando o bom senso. Ficou claro que Martin Klizan, Alexandr Dolgopolov, Janko Tipsarevic, Nick Kyrgios e Viktor Troicki foram à quadra cientes de que tinham mínimas chances de sequer completar a partida.

Vimos então hoje uma sequência constrangedora em plena Quadra Central, em que Novak Djokovic e Roger Federer não jogaram mais que um punhado de games. Os dois adversários estavam com problema público de tornozelo e o próprio Nole deixou escapar que sabia que Klizan não tinha condições antes mesmo de ir à quadra. No caso do ucraniano, foi a quarta desistência na temporada e a segunda consecutiva.

Tipsarevic diz ter se machucado no treino, tomou infiltração e ainda assim aguentou 12 minutos. Kyrgios também havia desistido no meio de sua estreia em Queen’s com seu doloroso quadril. A conclusão é que as entidades precisam estudar uma forma de punir esse comportamento, que lesa companheiros de profissão e especialmente o público.

Claro que é uma medida de difícil aplicação, porque os caras de pau podem simular uma contusão no meio de um ponto e fica difícil saber da verdade. No entanto vejam o caso de Klizan, que foi medicado no dia anterior, ou de Tipsarevic, poucas horas antes. Ou de Dog e Kyrgios, vindos de outro abandono em quadra sucessivo. Me parece plenamente possível criar uma regra disciplinar. A ATP já adotou este ano uma fórmula que compensa financeiramente o tenista que tiver de desistir por contusão antes de estrear.

Sem nada a ver com isso, Djokovic e Federer aproveitaram para quebrar marcas de Jimmy Connors. O sérvio chegou a 234 vitórias de Grand Slam e o suiço, a 85 em Wimbledon. Na entrevista, em tom de brincadeira, Federer diz que procurou Djokovic para jogarem um set extra e assim amenizar a grandiosa perda do público. Não foi má ideia. Fato curioso: das últimas 11 vitórias de Nole em Slam, quatro vieram por desistência ou abandono.

A rodada viu ainda estreias exigentes de Milos Raonic, Dominic Thiem, Juan Martin del Potro e Grigor Dimitrov. O búlgaro aliás viu o baixinho Diego Schwartzmann sacar para o primeiro set antes de fechar por 3 a 0. Desistência bem mais lamentável foi a de Feliciano López, que tentou ao máximo mas não aguentou e levou virada de Adrian Mannarino.

Por incrível que pareça, dois destaques cabem aos espanhóis David Ferrer e Albert Ramos. O primeiro chegou a Wimbledon com uma temporada de oito vitórias e 13 derrotas, mas deve ter se lembrado da notável sequência que carrega – não cai na primeira rodada de um Grand Slam desde Wimbledon de 2005 – e despachou Richard Gasquet, alguém que adora a grama e vinha de duas semis. Já o canhoto Ramos despachou Jordan Thompson, o australiano responsável pela eliminação de Andy Murray na estreia de Queen’s.

E mais
Thomaz Bellucci fechou a primeira rodada dos brasileiros com derrota. Não que isso seja surpresa num piso rápido e diante de um qualificado, mas de novo foi uma atuação sem vibração, sem alegria. O brasileiro precisa recuperar a parte mental enquanto é tempo.

Com o resultado, Bellucci poderá perder novamente a condição de número 1 do país, mas desta vez para Rogerinho Silva, que provisoriamente o ultrapassa por meros seis pontos. A definição no entanto vai acontecer no saibro de Braunsweg, onde os dois estarão na próxima semana.

A chave feminina viu a queda de cinco cabeças de chave de pouca expressão, porém o que importa mesmo é que Angelique Kerber e Karolina Pliskova superaram a tensão natural da primeira partida sem maiores sustos. Boa exibição mesmo fez Aga Radwanska, num piso em que a sutileza de golpes e a coragem de ir à rede sempre podem dar frutos.

Números
4 – Mandy Minella perdeu na estreia para Francesca Schiavone e depois revelou estar grávida de quatro meses.
7 – Número de match-points que Arina Rodionova salvou antes de surpreender a cabeça 16 Anastasia Pavlyuchenkova.
34 – Nadal e Millman fizeram as cinco mais longas trocas do torneio até agora, duas delas superior até mesmo à de Azarenka-Bellis, que teve 25 trocas.
69 – Será o ranking de Bernard Tomic após Wimbledon, isso se outros concorrentes não vencerem. Já são 40 postos perdidos desde janeiro. E uma frase infeliz, afirmando que não estava com vontade de jogar hoje.
227 – Milos Raonic deu o saque mais veloz do torneio na primeira rodada. Entre as meninas, Timea Babos sacou a 191,5 km/h.
589 – É o atual ranking de Ernests Gulbis, que vence um jogo importante depois de 18 meses.
1982 – Foi o ano em que Wimbledon viu pela última vez dois irmãos entre os cabeças de chave, os americanos Sandy e Gene Mayer, então cabeças 4 e 6 do torneio. Os Zverev passaram a primeira rodada.

Em tempo: Belo espaço o site da WTA dedicou a Bia Haddad. Vejam!

Murray e Nadal saem no prejuízo
Por José Nilton Dalcim
30 de junho de 2017 às 16:07

Nada mais justo para um Grand Slam tão aberto do que uma chave bem equilibrada. Ainda assim, vejo Roger Federer e Novak Djokovic com trajetórias mais animadoras rumo à semifinal do que Andy Murray e Rafal Nadal, que ficaram com roteiros mais exigentes. Se o Big 4 avançar, Federer reencontrará Nole, contra quem tem desvantagem de 2 a 1, e Nadal jogará com Murray defendendo invencibilidade de três duelos.

Murray e Nadal têm caminhadas semelhantes, ou seja, os adversários deverão endurecer a cada rodada. Pressionado pela defesa do título e do número 1 e especialmente pela fase ruim, Murray pode ter um destemido Dustin Brown na segunda rodada mas sua preocupação fica mesmo para as oitavas, caso encare Nick Kyrgios ou Lucas Pouille. Se avançar, faria então quartas contra Jo-Wilfried Tsonga ou Sam Querrey. O suíço Stan Wawrinka seria candidato, mas já tem estreia dura contra Daniil Medvedev, pode pegar Tommy Haas e depois Fernando Verdasco ou Kevin Anderson. É muita gente boa de grama para o cabeça 5. Se estiverem bem fisicamente, Tsonga e Kyrgios podem aproveitar o momento.

Nadal por sua vez precisa tomar cuidado na estreia com o australiano John Millman, 28 anos e 137º do ranking, mas que fez terceira rodada no ano passado. Depois, vem Don Young ou Denis Istomin, jogadores chatos. Na terceira, o talentoso Karen Khachanov e, nas oitavas, o embalado Gilles Muller ou o rei dos aces Ivo Karlovic. É uma sequência exigente, sem dúvida. Para estar na semi, o único real perigoso parece ser Marin Cilic, já que Kei Nishikori e Steve Johnson não assustam. Nesse quadrante, estão dois candidatos à zebra: Sergiy Stakhovsky e Florian Mayer.

Esta parte superior da chave abrirá Wimbledon na segunda-feira, já que a tradição manda o atual campeão jogar a primeira partida da Quadra Central, às 14h locais (9h de Brasília).

Federer começa contra Alexandr Dolgopolov e poderá ter primeiro jogo interessante na terceira fase contra Mischa Zverev ou Bernard Tomic, fazendo então oitavas diante de Grigor Dimitrov ou John Isner (se é que ele passa por Taylor Fritz na estreia). Seria uma trajetória excelente para o heptacampeão rumo a reencontrar Alexander Zverev ou o atual vice Milos Raonic. Difícil não dizer que o suíço seja favorito à vaga na semifinal em qualquer circunstância.

Aliviado com as boas apresentações da semana em Eastbourne, Djoko se esquenta contra Martin Klizan e provavelmente Del Potro antes de pegar Feli López ou Gael Monfils nas oitavas. São dois excelentes jogadores, mas sabemos como tendem a cair de intensidade diante dos grandes. Teremos oportunidade aliás de ver como Gael se sai neste sábado na final de Eastbourne. Portanto, espera-se ver o sérvio nas quartas diante de Richard Gasquet ou Tomas Berdych, já que não dá para apostar em Dominic Thiem ou Paolo Lorenzi na grama. A menos que aconteça um desastre, também parece bem difícil não termos Djokovic na penúltima rodada.

As meninas
A chave feminina não tem uma favorita absoluta, embora Karolina Pliskova e Petra Kvitova tenham muitos atributos. Angelique Kerber e Aga Radwanska, duas finalistas do torneio, ficaram no mesmo quadrante rumo a um duelo nas quartas. Quem passar, deve ter Pliskova na semi, a menos que Carol Wozniacki ou Kiki Mladenovic se inspirem muito. Não se pode descartar Coco Vandeweghe e até Tsvetana Pironkova é adversária indigesta.

A esperança britânica Johanna Konta tem problema físico e ainda deu o azar de ficar perto de Kvitova, contra quem faria eventual duelo nas oitavas. No mesmo quadrante, estão Simona Halep e Elena Vesnina, mas também Vika Azarenka e Anastasija Sevastova. Pode acontecer qualquer coisa.

A outra vaga na semi tem boa chance de ser americana, seja com Venus Williams ou Madison Keys, ou com o leste europeu, com Elina Svitolina, Mirjana Lucic, Ana Konjuh e Jelena Ostapenko. Muito curioso para ver como a campeã de Roland Garros vai se adaptar à grama, que ajuda o saque e a devolução da letã, mas deixa a bola muito abaixo da linha da cintura e exige voleios.

O Brasil
Bia Haddad Maia aparece como maior chance de o tênis brasileiro arrancar uma vitória em Wimbledon, mas ainda assim não é tarefa fácil diante da britânica Laura Robson, ex-top 30 que já fez oitavas em Wimbledon. Caso quebre o tabu de 28 anos – Gisele Miró foi a última a ganhar uma partida lá, em 1989 -, deverá pegar Simona Halep. Sorteio ingrato.

Os homens parecem fadados a derrotas precoces. Thomaz Bellucci e Thiago Monteiro pegam qualificados, mas não há lugar pior para se jogar contra gente do quali do que na grama. Afinal, os adversários vêm de três vitórias. Rogerinho por sua vez terá pela frente o instável Benoit Paire, mas que tem saque, slice e voleio adequados ao piso.

Primeiras impressões
Por José Nilton Dalcim
23 de junho de 2017 às 17:36

Os ATP 500 da grama mostram alguns nomes que precisaremos observar quando Wimbledon chegar, dentro de 10 dias. Além é claro de Roger Federer, evidencia-se a adaptação sempre boa de Richard Gasquet, Grigor Dimitrov e Feliciano López ao piso natural do tênis.

Grama é um lugar que geralmente requer experiência e favorece os mais rodados no circuito. Queen’s deixa isso bem claro. Dos quatro semifinalistas, dois são antigos campeões (Dimitrov e Marin Cilic) e os outros estão embalados: López, vice em Stuttgart, e Gilles Muller, que faturou na Holanda.

Daí seja saboroso o fato de termos dois garotos nas semifinais desses ATP 500. Se o russo Karen Khachanov se favoreceu da contusão de Kei Nishikori, o alemão Alexander Zverev já tem currículo no piso. Aliás, pode ser o primeiro tenista da temporada a somar troféus em três superfícies distintas.

Os dois garotos se misturam a um festival de ‘trintões’, que novamente justificam a regra da maior experiência. Temos Federer, perto dos 36, e Gasquet, que acabou de completar 31, em Halle mas também os canhotos Muller, 34, e López, 35, em Londres. Como se vê, média bem alta.

Vale ressaltar a notável eficiência de Cilic até agora: em três jogos, perdeu apenas seis pontos quando acertou o primeiro saque. Ao menos por enquanto, somando-se tantas surpresas na semana, tudo indica que teremos em Wimbledon um Grand Slam bem imprevisível.

– Bia Haddad perdeu incrível chance de derrotar a top 50 Mona Barthel no fortíssimo quali de Eastbourne, em que todas as 12 cabeças de chave estão entre as 90 do ranking e a principal inscrita é 29ª. Bia teve 6/3 e sacou com 5/1 e 5/3 no segundo set e com 5/4 no terceiro. Apesar da dura derrota, fica claro que, se tiver sorte na formação da chave, a canhota paulista pode passar rodadas em Wimbledon.

– Thomaz Bellucci anunciou o segundo rompimento com o técnico João Zwetsch e diz que vai seguir sozinho por algum tempo. Me pergunto o quanto as recentes derrotas para Thiago Monteiro pesaram no clima.

– O britânico Daniel Evans foi testado positivo em abril, durante Barcelona, pelo uso de cocaína, droga de caráter social que não costuma influir no rendimento esportivo. Está suspenso e fora de Wimbledon, aguardando a pena que pode chegar a dois anos.