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Casal 20
Por José Nilton Dalcim
3 de julho de 2017 às 17:51

Os namorados canhotos que representam a nova geração do tênis brasileiro tiveram um dia inesquecível na dificílima grama inglesa. Bia Haddad encurralou a dona da casa Laura Robson com um jogo vigoroso e vistoso, enquanto Thiago Monteiro foi mais agressivo e determinado que o australiano Andrew Whittington, alguém que naturalmente deveria estar mais afiado no piso do que o cearense.

Notável que a primeira vitória de Grand Slam de Bia tenha acontecido em Wimbledon, torneio de difícil sucesso para as meninas brasileiras depois de Maria Esther Bueno. Basta ver que a paulista de 21 anos e 1,84m quebrou tabu de quase três décadas, desde que a paranaense Gisele Miró, autêntica representante do saque-voleio, ganhou uma partida em 1989.

Embora seja uma tarefa muito difícil, Bia estará diante de um feito ainda mais expressivo na quarta-feira diante de Simona Halep, podendo obter a maior vitória brasileira em toda a Era Profissional. Desde 1968, nem mesmo Estherzinha derrotou uma cabeça 2 em evento de Grand Slam. Em termos de ranking, Dadá Vieira e Niege Dias venceram duas top 5 entre 1988 e 1989.

Monteiro curiosamente foi a Londres saindo diretamente o saibro e teve poucos dias de treino na grama. Mas se virou bem até mesmo nos voleios, que é um dos seus pontos frágeis. O russo Karen Khachanov, de 21 anos e já 34º do ranking, mostrou qualidades na grama em recente duelo contra nada menos que Roger Federer, perdendo por 6/4 e 7/6 com direito a muitos elogios do suíço.

Também vale menção honrosa ao esforço de Rogerinho Silva contra o habilidoso Benoit Paire, ainda que não tenhamos visto imagens da partida. Porém, num piso muito adverso, ele tirou set do francês e teve duas chances de levar ao quinto. Que temporada incrível ele vem fazendo.

Adeus, Stan
O sonho de conquistar Wimbledon acabou muito, muito cedo para Stan Wawrinka. Ele até contratou Paul Annacone para ajudá-lo na dura tarefa, mas não contava com um joelho esquerdo ruim nem com a estreia difícil diante do bom Daniil Medvedev. Foi a quinta vez que o suíço sequer passou da primeira rodada no Club.

Não foi a única novidade do dia. Nick Kyrgios também voltou a sentir o quadril e, assim como havia acontecido em Queen’s, nem completou o jogo, desta vez diante do ótimo sacador Pierre Herbert. Mais um cabeça caiu, Fernando Verdasco, mas desta vez não houve surpresa, já que encarou o competente Kevin Anderson, aquele que quase tirou Djokovic em 2015.

Isso tudo serve para animar Andy Murray. O número 1 fez bons lances na fácil partida inicial e terá um teste curioso diante do acrobático Dustin Brown, no que pode ser um belíssimo espetáculo. O maior candidato a cruzar com o escocês nas quartas agora é Jo-Wilfried Tsonga.

Rafa Nadal também teve jogo bem tranquilo e exibiu um belo tênis, seja com golpes pesados da base, seja com voleios espertos e toque sutis. Pelo jogo firme que continua mostrando, Marin Cilic mantém-se como maior obstáculo do espanhol antes da semi.

Ostapenko sua
Campeã juvenil de Wimbledon, Jelena Ostapenko encontrou alguma dificuldade para se adaptar do saibro para a grama. Cedeu um set e quatro serviços, cometeu 23 erros, mas não perdeu a determinação de bater na bola. Passou o primeiro teste de natural cobrança e isso ficou claro na sua estridente vibração no match-point.

A rodada só viu cair duas cabeças de menor expressão (Mirjana Lucic e Roberta Vinci), alguma oscilação de Petra Kvitova e Venus Williams e um belo jogo em que Dominika Cibulkova venceu Andrea Petkovic por 9/7 no terceiro set. Vika Azarenka voltou a vencer um jogo de Slam depois de 18 meses mas precisará de muito mais para entrar no rol das candidatas.

Números
6 – Se Roger Federer fizer seis aces na estreia contra Dolgopolov, atingirá os 10.000 aces na carreira. Será o terceiro a obter tal marca, desde que a ATP passou a contar, em 1991. Karlovic tem 12.108 e Goran Ivanisevic, 10.131.
96 – Venus Williams igualou a irmã Serena em número de partidas disputadas em Wimbledon. Esta é sua 20ª participação.
98 – Ivo Karlovic fez quase 100 winners, sendo 44 aces, mas ainda assim perdeu no quinto set para Aljas Bedene.
701 – Karlovic jogou quatro tiebreaks contra Bedene e soma agora 357 vencidos e 344 perdidos na carreira.
850 – Nadal se torna o sétimo em número de vitórias na Era Profissional, repetindo Connors, Federer, Lendl, Vilas, McEnroe e Agassi.
39.000 – O primeiro dia de Wimbledon teve lotação total no Club e assim nenhum ingressos avulso foi vendido até o meio da tarde.

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Wimbledon vale glória, façanhas e nº 1
Por José Nilton Dalcim
2 de julho de 2017 às 12:46

As atenções de Wimbledon estão, mais uma vez, em cima do chamado ‘Big 4’. Triunfar novamente na grama sagrada pode ser a redenção para Andy Murray, o embalo para Novak Djokovic, a consagração final de Roger Federer ou o domínio definitivo de Rafael Nadal. Observe-se que os quatro não ocupavam os principais postos de cabeça de chave num Slam desde o mesmo Wimbledon de 2014 e têm dividido todos os últimos 14 troféus do torneio.

Há ao mesmo tempo a luta direta pelo número 1, e das boas. Murray e Nadal garantem o posto se for à final e essa luta pode ser direta entre eles, que estão programados para se cruzar na semi. Stan Wawrinka está na briga, mas teria de ganhar o torneio. Só o título dá a liderança a Djokovic, mas ele ainda depende de Murray e Nadal caírem até as quartas.

Primeira vez como cabeça 1 dentro de casa, Murray tentará evitar ser o terceiro campeão de Wimbledon a perder na estreia, como aconteceu a Manuel Santana em 1967 e a Lleyton Hewitt em 2003. O escocês vive temporada ruim, acusou dores no quadril nos últimos dias, mas não perde antes das quartas em Wimbledon desde 2008, com sete semis, três finais e dois títulos.

Wimbledon pode ser triplamente espetacular para Nadal. Além de recuperar a ponta do ranking e atingir o 16º Grand Slam, encostando definitivamente em Federer, ele ainda seria o segundo homem em todos os tempos a ganhar Roland Garros e Wimbledon em sequência por três vezes, repetindo o feito único e mágico de Bjorn Borg, entre 1978 e 1980.

Federer também busca mais história, já que nenhum homem venceu Wimbledon por oito vezes, nem mesmo nos tempos em que o campeão só disputava o título (até 1922). O suíço já começa o torneio com um feito: joga seu 70º Slam e iguala a marca de Fabrice Santoro. Se passar da estreia, supera Jimmy Connors e se torna o maior vencedor de Wimbledon, com 85 jogos em 96 possíveis. Ao ganhar três partidas, reassumirá liderança de vitórias em Slam, que hoje está com Serena Williams (316).

Revigorado pela conquista de Eastbourne, Djokovic tenta o quarto triunfo nas últimas sete idas a Wimbledon, o que o igualaria a Rod Laver no torneio e o levaria ao 13º Slam, voltando à briga contra Nadal (15) e Federer (18). Se confirmar na estreia, torna-se o segundo maior vencedor de Slam da fase profissional, indo a 234 e deixando Jimmy Connors para trás (Federer lidera com 314).

Correndo totalmente por fora, já que seu histórico jamais foi além das quartas, Wawrinka pode se tornar apenas o nono tenista na história a ganhar ao menos uma vez cada um dos Slam e se juntar a Don Budge, Fred Perry, Roy Emerson, Rod Laver, Andre Agassi, Nadal, Federer e Djokovic.

Feminino: mais luta
Sem a rainha Serena Williams, o torneio parece mais aberto do que nunca para as meninas e, com isso, também há grande expectativa na luta pelo número 1. Angelique Kerber precisa chegar pelo menos à semifinal para ter chance de manter a ponta, muito ameaçada por Karolina Pliskova e Simona Halep. A tcheca pode assumir a ponta mesmo que perca na primeira rodada e desde que Kerber não repita a final de 2016 e Halep cai antes da semi.

Mesmo sem Serena e Maria Sharapova, a chave feminina ainda reúne nove campeãs de Slam e outras 11 finalistas. Venus Williams, com 5, e Petra Kvitova, com 2, são as únicas que já ganharam Wimbledon. Kerber, Muguruza, Bouchard, Lisicki e Radwanska chegaram na decisão.

E também…
– Primeiro torneio de tênis de todos os tempos, Wimbledon realiza sua 131ª edição (a 124ª para as mulheres) e a 50ª desde que aceitou profissionais, em 1968.
– Experiência conta muito na grama. Não à toa, Wimbledon é o torneio que mais teve campeões defendendo seu troféu na Era Aberta (18 para homens e 24 para mulheres) e o que menos viu um vencedor faturar ali seu primeiro Slam (apenas 7). Dos 54 diferentes tenistas masculinos que ganharam um Slam desde 1968, somente 21 ergueram o troféu em Wimbledon.
– Apenas 10 países figuram na lista de campeãs de simples em Wimbledon, e entre esses está o Brasil, graças a Maria Esther Bueno.
– O que pouca gente sabe é que, além de Maria Esther, outros quatro brasileiros fizeram quartas em Wimbledon: Armando Vieira, em 1951; Thomaz Koch, em 1967; Guga Kuerten, em 1999; e André Sá, em 2004. O último a ganhar dois jogos foi Thomaz Bellucci, em 2010; a última mulher a ganhar uma partida, Gisele Miró, em 1989.
– Cada campeão de simples receberá 2,2 milhões de libras, o que equivale a US$ 2,86 milhões. Isso é bem inferior aos US$ 3,5 mi que o US Open deu no ano passado e apenas ligeiramente superior aos US$ 2,84 mi que a Austrália deu. Roland Garros permanece em quarto, com US$ 2,4 mi. Quem perdeu na primeira rodada do quali em Wimbledon ainda levou mais de US$ 5 mil.
– Um dado para animar Marcelo Melo: nos últimos 15 Slam, 13 diferentes parcerias ganharam o título. Os únicos a repetir foram Soares/Murray e Mahut/Herbert.
– A última vez que um tenista venceu Wimbledon logo em sua primeira participação foi em 1952, com a fantástica Maureen Connolly. Entre os homens, em 1951, com Dick Savitt. Os destaques dessa nobre lista são Bill Tilden e Suzanne Lenglen.
– Tommy Haas é o mais velho participante, aos 39 anos e 104 dias, mais do dobro da idade do mais jovem, Denis Shapovalov, com 18 anos e 92 dias. Os dois ganharam convites.
– Aos 37, Venus Williams atinge seu 75º evento de Slam, recorde absoluto entre homens e mulheres. Com 67, Francesca Schiavone iguala terceiro lugar de Martina Navratilova.
– O sistema de cabeças de chave foi instituído em 1924 e desde então jamais uma tenista não cabeça ganhou Wimbledon. Entre os homens, só aconteceu com Boris Becker e Goran Ivanisevic.

Murray e Nadal saem no prejuízo
Por José Nilton Dalcim
30 de junho de 2017 às 16:07

Nada mais justo para um Grand Slam tão aberto do que uma chave bem equilibrada. Ainda assim, vejo Roger Federer e Novak Djokovic com trajetórias mais animadoras rumo à semifinal do que Andy Murray e Rafal Nadal, que ficaram com roteiros mais exigentes. Se o Big 4 avançar, Federer reencontrará Nole, contra quem tem desvantagem de 2 a 1, e Nadal jogará com Murray defendendo invencibilidade de três duelos.

Murray e Nadal têm caminhadas semelhantes, ou seja, os adversários deverão endurecer a cada rodada. Pressionado pela defesa do título e do número 1 e especialmente pela fase ruim, Murray pode ter um destemido Dustin Brown na segunda rodada mas sua preocupação fica mesmo para as oitavas, caso encare Nick Kyrgios ou Lucas Pouille. Se avançar, faria então quartas contra Jo-Wilfried Tsonga ou Sam Querrey. O suíço Stan Wawrinka seria candidato, mas já tem estreia dura contra Daniil Medvedev, pode pegar Tommy Haas e depois Fernando Verdasco ou Kevin Anderson. É muita gente boa de grama para o cabeça 5. Se estiverem bem fisicamente, Tsonga e Kyrgios podem aproveitar o momento.

Nadal por sua vez precisa tomar cuidado na estreia com o australiano John Millman, 28 anos e 137º do ranking, mas que fez terceira rodada no ano passado. Depois, vem Don Young ou Denis Istomin, jogadores chatos. Na terceira, o talentoso Karen Khachanov e, nas oitavas, o embalado Gilles Muller ou o rei dos aces Ivo Karlovic. É uma sequência exigente, sem dúvida. Para estar na semi, o único real perigoso parece ser Marin Cilic, já que Kei Nishikori e Steve Johnson não assustam. Nesse quadrante, estão dois candidatos à zebra: Sergiy Stakhovsky e Florian Mayer.

Esta parte superior da chave abrirá Wimbledon na segunda-feira, já que a tradição manda o atual campeão jogar a primeira partida da Quadra Central, às 14h locais (9h de Brasília).

Federer começa contra Alexandr Dolgopolov e poderá ter primeiro jogo interessante na terceira fase contra Mischa Zverev ou Bernard Tomic, fazendo então oitavas diante de Grigor Dimitrov ou John Isner (se é que ele passa por Taylor Fritz na estreia). Seria uma trajetória excelente para o heptacampeão rumo a reencontrar Alexander Zverev ou o atual vice Milos Raonic. Difícil não dizer que o suíço seja favorito à vaga na semifinal em qualquer circunstância.

Aliviado com as boas apresentações da semana em Eastbourne, Djoko se esquenta contra Martin Klizan e provavelmente Del Potro antes de pegar Feli López ou Gael Monfils nas oitavas. São dois excelentes jogadores, mas sabemos como tendem a cair de intensidade diante dos grandes. Teremos oportunidade aliás de ver como Gael se sai neste sábado na final de Eastbourne. Portanto, espera-se ver o sérvio nas quartas diante de Richard Gasquet ou Tomas Berdych, já que não dá para apostar em Dominic Thiem ou Paolo Lorenzi na grama. A menos que aconteça um desastre, também parece bem difícil não termos Djokovic na penúltima rodada.

As meninas
A chave feminina não tem uma favorita absoluta, embora Karolina Pliskova e Petra Kvitova tenham muitos atributos. Angelique Kerber e Aga Radwanska, duas finalistas do torneio, ficaram no mesmo quadrante rumo a um duelo nas quartas. Quem passar, deve ter Pliskova na semi, a menos que Carol Wozniacki ou Kiki Mladenovic se inspirem muito. Não se pode descartar Coco Vandeweghe e até Tsvetana Pironkova é adversária indigesta.

A esperança britânica Johanna Konta tem problema físico e ainda deu o azar de ficar perto de Kvitova, contra quem faria eventual duelo nas oitavas. No mesmo quadrante, estão Simona Halep e Elena Vesnina, mas também Vika Azarenka e Anastasija Sevastova. Pode acontecer qualquer coisa.

A outra vaga na semi tem boa chance de ser americana, seja com Venus Williams ou Madison Keys, ou com o leste europeu, com Elina Svitolina, Mirjana Lucic, Ana Konjuh e Jelena Ostapenko. Muito curioso para ver como a campeã de Roland Garros vai se adaptar à grama, que ajuda o saque e a devolução da letã, mas deixa a bola muito abaixo da linha da cintura e exige voleios.

O Brasil
Bia Haddad Maia aparece como maior chance de o tênis brasileiro arrancar uma vitória em Wimbledon, mas ainda assim não é tarefa fácil diante da britânica Laura Robson, ex-top 30 que já fez oitavas em Wimbledon. Caso quebre o tabu de 28 anos – Gisele Miró foi a última a ganhar uma partida lá, em 1989 -, deverá pegar Simona Halep. Sorteio ingrato.

Os homens parecem fadados a derrotas precoces. Thomaz Bellucci e Thiago Monteiro pegam qualificados, mas não há lugar pior para se jogar contra gente do quali do que na grama. Afinal, os adversários vêm de três vitórias. Rogerinho por sua vez terá pela frente o instável Benoit Paire, mas que tem saque, slice e voleio adequados ao piso.