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A redenção de Maria
Por José Nilton Dalcim
29 de agosto de 2017 às 03:04

A chave feminina do US Open poderia ter terminado na noite de seu primeiro dia e ainda assim entraria para o livro de memórias. Maria Sharapova e Simona Halep fizeram uma autêntica decisão de título, milimetricamente disputada, tensa e intensa da primeira à última bola, entrega absoluta e nível técnico assombroso. Não se pode querer muito mais de um jogo de tênis.

Sharapova venceu, e isso tornou o duelo ainda mais especial. Sem ritmo de competição por conta da suspensão e depois dos problemas físicos, encarou a embalada número 2 do mundo sabendo que a única chance era arriscar o tempo inteiro. Soltou o braço, fez 60 winners e 64 erros, sete aces e sete duplas faltas. Deu curtinhas e voleios, coisa pouco comum no seu arsenal. Ditou o ritmo e exigiu o máximo poder defensivo de Halep.

Pode-se gostar ou não de Sharapova, discutir seu problema com o doping, mas não se deve negar a notável qualidade de seu tênis, a incrível capacidade de gerar força de qualquer ponto da quadra e a determinação incansável de buscar a linha. É muito difícil que ela consiga manter esse padrão por mais seis jogos, mas se fizer 80% disso vira candidata séria ao segundo troféu em Nova York, 11 anos depois do primeiro. No clima de déja vu que o tênis vive em 2017, não parece improvável.

À rodada masculina faltou um jogo espetacular neste primeiro dia, mas já surgiram duas surpresas das boas: a queda do dono da casa Jack Sock em cinco sets para um Jordan Thompson que se arrastava em quadra no finalzinho e a virada impediedosa que David Ferrer levou de Mikhail Kukushkin, um ‘freguês’ que havia perdido todos os sete duelos anteriores. Claro que, a rigor, Sock e Ferrer não eram nomes cotados para ir além de quartas.

Cotada para fazer boas campanhas em Nova York, a nova geração avançou com Alexander Zverev, que não levou com seriedade o começo do jogo e acabou tendo inesperado trabalho com o 168º do ranking, e uma excelente atuação do canhoto Denis Shapovalov, que passa a ser uma ameaça a Jo-Wilfried Tsonga com seu misto de força pura e toque refinado. A quarta-feira promete.

Para o Brasil, despedidas de Rogerinho Silva e Bia Haddad. O paulista desperdiçou um ótimo início e sofreu nos dois últimos sets com o estilo pouco ortodoxo de Florian Mayer, um ex-top 20 que joga bem em qualquer piso. Não houve imagens da dura derrota de Bia para Donna Vekic, então resta ficar com suas palavras de que foi ‘um dia em que nada deu certo’.

Mesmo esvaziado, US Open espera façanhas
Por José Nilton Dalcim
27 de agosto de 2017 às 21:44

Andy Murray mexeu com o US Open antes mesmo de ser dado o primeiro saque. Cerca de 24 horas depois de sorteada a chave, o campeão de 2012 anunciou que não se sentia em condições de lutar pelo título e, sem isso, não faria sentido competir. De um lado, ficou certa frustração porque vimos Rafael Nadal e Roger Federer serem colocados no mesmo lado superior da chave. Mas, lá no fundo, não faz grande diferença, já que ninguém realmente imaginou que o britânico pudesse ser candidato sequer às semifinais.

A última vez que o circuito masculino viu um Grand Slam sem Murray, Novak Djokovic e Stan Wawrinka foi no US Open de 2004, quando nenhum deles tinha ainda currículo expressivo, Federer iniciava seu domínio e Nadal não passava de uma promessa. Faz muito tempo. São cinco dos 11 mais bem colocados do ranking de fora. E dos seis restantes ainda há dúvidas sobre Federer e Marin Cilic, que não joga desde a final de Wimbledon.

Segundo mais antigo torneio do tênis, o US Open é o único Grand Slam que tem sido disputado sem interrupção desde seu início. Por isso, realizará a 137ª edição geral e a 50ª da Era Profissional. Vejamos alguns detalhes que apimentarão Big Apple:

– Com a saída de Murray, a liderança do ranking masculino estará entre Nadal e Federer, mas a briga só começará se o suíço atingir pelo menos as quartas de final.
– No feminino, oito lutam pelo número 1, mas quatro só têm chance se conquistarem o título. Halep e Muguruza possuem as melhores chances, já que Pliskova defende o vice e Svitolina precisa no mínimo de semi.
– Ao entrar em quadra nesta terça-feira, Federer se tornará o tenista com mais Slam disputados em todos os tempos, com 71. No feminino, Venus amplia seu recorde absoluto para 76.
– A derrota mesmo na primeira rodada renderá incríveis US$ 50 mil ao tenista. Os campeões faturarão o recorde de US$ 3,7 milhões.
– Último tenista a ganhar nos EUA sem perder sets foi Neale Frases, em 1960.
– O estádio Arthur Ashe completa 20 anos. Federer é o recordista de jogos (74), de vitórias (66) e de vitórias noturnas (31-1).
– Nadal não ganha um título na quadra dura desde Doha em 2014. Desde então, foram 34 torneios e oito finais disputadas.
– Feli López atingirá 63 Slam consecutivos e ficará a dois de igualar Federer.
– Se vencer na estreia, Federer igualará Agassi com 79 vitórias em Nova York e ficará atrás somente das 98 de Connors.
– Nadal tem 219 triunfos em Grand Slam e pode superar Lendl (222) e Agassi (224) ao longo do US Open para se isolar no quarto lugar.
– Patrick Kypson, aos 17, é o mais jovem participante. Ivo Karlovic, aos 38, o mais velho.

Dimitrov dá aula de aplicação tática
Por José Nilton Dalcim
20 de agosto de 2017 às 21:02

Se fosse possível resumir uma partida de tênis a um único lance, nada mais límpido que a passada paralela de Grigor Dimitrov no game final do duelo contra Nick Kyrgios para explicar o que se viu na decisão de Cincinnati deste domingo. O búlgaro atlético, preciso, empenhado diante de um adversário que ficou perdido na armadilha muito bem preparada por Dimitrov e seguida à risca do começo ao fim.

Muitas vezes acusado de se perder nos planos de jogos, Dimitrov desta vez foi impecável. Mesclou velocidades no backhand de Kyrgios, capitalizando seguidas vezes com o slice curto, e se mostrou focado e confiante, com um saque eficiente. Nas poucas oportunidades que o australiano teve nos dois sets, Dimitrov sempre achou a resposta mais correta.

É bem verdade que me pareceu ter faltado atitude ofensiva a Kyrgios. Ficou passivo demais, como se achasse que em algum momento o búlgaro iria começar a entregar pontos, e quando foi para cima geralmente escolheu o caminho errado. Isso surpreende ainda mais quando se soube que os dois andaram treinando juntos nos últimos dias.

De qualquer forma, o título ficou em ótimas mãos. Em pisos mais velozes, sabe-se que Dimitrov está mais à vontade, como já vimos em Wimbledon e na recente semifinal do Australian Open. Se for verdade que o US Open irá também optar por uma bola mais veloz, Dimitrov só precisará mesmo de um bom sorteio para ter chances de ir longe. O mesmo se pode dizer de Kyrgios, que apesar de alguma choradeira com o árbitro mostrou de novo comportamento que se espera de um profissional top 20.

Na chave feminina, outro show de Garbiñe Muguruza. Deu pena de Simona Halep, que sofreu para ganhar pontos até a metade do segundo set. A diferença de força entre as duas é muito grande e a espanhola parece totalmente à vontade no seu estilo agressivo. Mesmo quando está trocando bolas na base, seus golpes estão profundos e pesados, empurrando a adversária para trás. Arrisco a dizer que é a grande favorita para o US Open.

Halep pela quarta vez viu desmoronar o sonho de atingir a liderança do ranking, mas terá outra oportunidade em Nova York. O problema é que agora Muguruza entrou no páreo e tem muito menos pontos a defender. A rigor, precisa marcar 160 pontos a mais que Halep e pode perder pelo menos uma rodada antes de Pliskova. Ou seja, virou séria e merecida candidata a assumir o posto.