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Tragédia anunciada
Por José Nilton Dalcim
18 de setembro de 2017 às 11:10

Desde a convocação do time, a impressão era de que a coisa não iria correr bem na repescagem da Copa Davis em Osaka. De forma um tanto incompreensível, Rogério Silva ficou de fora, mesmo sendo de longe o brasileiro de maior consistência e sucesso na temporada. Não se discute que Thomaz Bellucci jogue mais que ele, mas não se pode ignorar o momento de um atleta em um esporte individual e o de Bellucci é muito ruim, fisica e tecnicamente.

O clima só piorou depois que Bellucci pediu dispensa por motivos médicos. O capitão João Zwetsch tentou chamar Rogerinho e ele obviamente não atendeu. Primeiro porque alegou não ter sido sequer comunicado de que não iria ao Japão, algo inadmissível. Depois, porque havia feito um calendário para disputar ATPs na Rússia e Ásia. Restou convocar Guilherme Clezar, que disputava challengers no saibro, sem falar que entre abril e junho chegou a entrar até em futures. Acabou ainda dando vexame com um gesto totalmente inapropriado. Por que não se optou por João ‘Feijão’ Souza, bem mais experiente?

Ou seja, de um time coeso e com três bons jogadores para um piso sintético muito lento – alguma dúvida de que Rogerinho se daria muito bem nele? – e diante de um adversário totalmente desfigurado, sobraram cacos. Ainda assim, dava para ganhar. O número 42 Yuichi Sogita, que não era titular desde 2013, se mostrou nervoso e defensivo até mesmo contra Clezar. Monteiro desperdiçou boas oportunidades para derrotar o veterano Go Soeda e nem mesmo um quinto set adiantou. Para variar, só os duplistas mineiros justificaram. A atuação do canhoto cearense no quarto jogo foi estranha, cheia de erros, apressado, saque instável. Ainda assim teve 3/1 no primeiro e terceiro sets. Doeu.

Nem vou falar agora em Zonal Americano para 2018, porque enfrentar Chile, Equador e Venezuela é um tira-gosto sem graça. E já dá para ficar apreensivo se tivermos de sair contra Colômbia e República Dominicana. Talvez seja hora de trocarmos as peças do xadrez. Há muita gente falando nos bastidores que a troca de treinador é iminente. A eterna dúvida é saber quem ocuparia um cargo que exige experiência na quadra e um essencial bom relacionamento com tenistas e dirigentes. André Sá, que agora tenta ajudar Bellucci, surge como candidato natural. Talvez seja mesmo o momento.

Lá entre os realmente grandes, França e Bélgica confirmaram o fator casa e a escolha esperta do piso de saibro para atingir a final de novembro. Sem qualquer jogador em boa fase, os franceses preocupavam. A sorte foi pegar uma Sérvia desfalcada, apesar da boa atuação de Dusan Lajovic nas simples. Jo-Wilfried Tsonga virou herói e quem sabe as duas vitórias no fim de semana coloquem de novo sua carreira nos trilhos. Note-se que Lille usou o estádio de futebol da cidade improvisado e recebeu 18 mil espectadores.

A Bélgica também usou o saibro e 15 mil torcedores barulhentos para conter a Austrália. O quarto jogo foi um espetáculo. David Goffin fez talvez sua melhor partida do ano e segurou Nick Kyrgios, que usou os mais diversos recursos táticos para desestabilizar o adversário. Salvaram o fim de semana. Esta será a segunda vez em três anos que os belgas tentarão o título da Davis mesmo tendo Steve Darcis e Ruben Bemelmans como número 2. Vai ser difícil porque a França deve escolher um piso sintético mais veloz e coberto para o duelo de novembro.

A repescagem viu a queda da Argentina fora de casa para o Cazaquistão, mostra que Juan Martin del Potro faz toda a diferença do mundo. Mas a pequena zebra do fim de semana foi a derrota da nova geração russa diante da Hungria, ainda que no saibro. A Suíça e a Holanda conseguiram sobreviver com duas vitórias no domingo, Alemanha e Croácia tiraram o sonho de Portugal e Colômbia chegarem pela primeira vez no Grupo Mundial.

A redenção de Maria
Por José Nilton Dalcim
29 de agosto de 2017 às 03:04

A chave feminina do US Open poderia ter terminado na noite de seu primeiro dia e ainda assim entraria para o livro de memórias. Maria Sharapova e Simona Halep fizeram uma autêntica decisão de título, milimetricamente disputada, tensa e intensa da primeira à última bola, entrega absoluta e nível técnico assombroso. Não se pode querer muito mais de um jogo de tênis.

Sharapova venceu, e isso tornou o duelo ainda mais especial. Sem ritmo de competição por conta da suspensão e depois dos problemas físicos, encarou a embalada número 2 do mundo sabendo que a única chance era arriscar o tempo inteiro. Soltou o braço, fez 60 winners e 64 erros, sete aces e sete duplas faltas. Deu curtinhas e voleios, coisa pouco comum no seu arsenal. Ditou o ritmo e exigiu o máximo poder defensivo de Halep.

Pode-se gostar ou não de Sharapova, discutir seu problema com o doping, mas não se deve negar a notável qualidade de seu tênis, a incrível capacidade de gerar força de qualquer ponto da quadra e a determinação incansável de buscar a linha. É muito difícil que ela consiga manter esse padrão por mais seis jogos, mas se fizer 80% disso vira candidata séria ao segundo troféu em Nova York, 11 anos depois do primeiro. No clima de déja vu que o tênis vive em 2017, não parece improvável.

À rodada masculina faltou um jogo espetacular neste primeiro dia, mas já surgiram duas surpresas das boas: a queda do dono da casa Jack Sock em cinco sets para um Jordan Thompson que se arrastava em quadra no finalzinho e a virada impediedosa que David Ferrer levou de Mikhail Kukushkin, um ‘freguês’ que havia perdido todos os sete duelos anteriores. Claro que, a rigor, Sock e Ferrer não eram nomes cotados para ir além de quartas.

Cotada para fazer boas campanhas em Nova York, a nova geração avançou com Alexander Zverev, que não levou com seriedade o começo do jogo e acabou tendo inesperado trabalho com o 168º do ranking, e uma excelente atuação do canhoto Denis Shapovalov, que passa a ser uma ameaça a Jo-Wilfried Tsonga com seu misto de força pura e toque refinado. A quarta-feira promete.

Para o Brasil, despedidas de Rogerinho Silva e Bia Haddad. O paulista desperdiçou um ótimo início e sofreu nos dois últimos sets com o estilo pouco ortodoxo de Florian Mayer, um ex-top 20 que joga bem em qualquer piso. Não houve imagens da dura derrota de Bia para Donna Vekic, então resta ficar com suas palavras de que foi ‘um dia em que nada deu certo’.

Injustiça
Por José Nilton Dalcim
8 de agosto de 2017 às 23:54

É bem raro alguém perder sem merecer no tênis, mas acho que esse foi o caso de hoje na partida em que Rogerinho Silva foi eliminado logo na estreia de Montréal – seu primeiro Masters 1000 – para a sensação canadense Denis Shapovalov. E digo isso sem qualquer patriotismo. Bom, talvez tenha havido patriotismo sim, mas dos canadenses.

Saído de longas semanas no saibro, viajando às pressas para o Canadá, Rogerinho ainda achou o tempo perfeito da quadra sintética lenta e jogou três sets de excelente nível, diante de um adversário 15 anos mais jovem, totalmente apoiado pela torcida, no seu piso predileto e muito bem adaptado às condições.

O ponto essencial no entanto foi o erro do juiz de linha (e talvez do árbitro de cadeira), ao não ver que a bola de Shapovalov havia saído no fundo de quadra durante a troca de bolas que daria um quinto match point ao brasileiro no tiebreak do segundo set. O próprio público chegou a dar um “ohhh” no momento, mas Rogerinho acabou pegando de bate pronto e provavelmente não teve certeza suficiente para interromper o lance e pedir o desafio.

Imagino a frustração de Rogerinho quando soube da imagem que a própria TV canadense mostrou logo depois desse ponto, anotando que a bola havia saído por pelo menos dois dedos. Em seguida, cometeu dupla falta e perdeu o set. E antes que qualquer um condene o brasileiro por ter perdido os quatro match points anteriores, todo mérito tem de ser dado a Shapovalov, que foi incrivelmente valente nessa hora e acertou ace, voleio e até um backhand na paralela que raramente vinha conseguindo na partida.

No resto, só se pode tecer elogios ao paulista de 33 anos, que poderia atingir o top 60 com a vitória. Jogou solto, correu muito, bateu incríveis bolas do fundo, exibiu um backhand de uma mão muito mais eficiente e consistente do que o do adversário. Shapovalov sem dúvida tem grande potencial, embora eu o veja exagerando demais na postura agressiva, algo como se sentisse a obrigação de ganhar todos os pontos e fazer lances bonitos. Se consertar isso, a ascensão ao top 50 será inevitável e rápida.

Sua vitória na primeira rodada sela uma participação animadora da nova geração, que avançou com Borna Coric, Ernesto Escobedo, Heyon Chung e Jared Donaldson. As decepções foram poucas. A maior delas de Frances Tiafoe. Curiosamente, o comandante maior do trabalho de renovação da USTA, o espanhol Jose Higueras, afirmou neste fim de semana que considera Tiafoe o mais atlético e o de maior potencial dos garotos americanos, o que concordo totalmente. Vale observar que Donaldson já está nas oitavas depois de tirar Lucas Pouille e Benoit Paire.

E que mancada dos organizadores ao não promover a estreia de Roger Federer nesta terça-feira de aniversário. Diante de um oponente que teoricamente oferecerá pouca chance de surpresa, seria o clima perfeito para uma festa. A menos que eles tenham achado muito pouco simpático preparar o bolo como se dessem como certa a derrota do local Peter Polansky.