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Dolorosa, mas sábia decisão
Por José Nilton Dalcim
26 de julho de 2017 às 22:46

Não chegou a ser uma surpresa, mas ainda assim é uma decepção enorme sabermos que o restante da temporada 2017 não terá Novak Djokovic. Algo idêntico ao que aconteceu a Roger Federer no ano passado.

Fica mais doloroso isso ocorrer justamente no período em que o sérvio habitualmente se dá tão bem. A partir de Montréal e até Londres, será a maior e mais importante sequência do circuito sobre quadras sintéticas.

Nessa fase do calendário, Djoko tem quatro troféus no Canadá, dois no US Open, nove na China, quatro em Paris e cinco no Finals. Tremendo currículo, sem contar as finais disputadas.

Parece consenso que o cotovelo não é seu único problema, mas tudo indica que possa ser um dos mais relevantes. Há aquela boataria interminável sobre crise conjugal, que culminou na contratação do polêmico guru Pepe Imaz.

O que afinal acontece com o cotovelo direito de Djokovic? Segundo suas próprias palavras, é uma dor que o acompanha por 18 meses. Os especialistas já apontavam que a mudança no movimento do saque, introduzida por Boris Becker, seria a grande responsável.

Quem observar atentamente, vai ver que Nole inicia o movimento que vai dar a laçada e acelerar o saque com a cabeça da raquete muito baixa e próxima ao lado direito do corpo. Isso exigiria mais trabalho do cotovelo no intuito de se acelerar a cabeça da raquete e assim obter um golpe potente.

Claro que o cotovelo avariado afetará diversos outros golpes, especialmente forehand e voleios. Imagino o sofrimento de Djokovic nessa curta temporada de grama, um piso que leva qualquer tenista a errar com frequência o centro das cordas e dar as famosas ‘madeiradas’. Se dói com o braço bom, o que dirá com o cotovelo ruim.

Diante desse quadro, a parada é mesmo a saída recomendada. Porque nesse tipo de lesão não basta apenas tratar e curar, mas é essencial identificar a origem do problema e sanar. Se for mesmo o saque, isso exigirá nova mudança no movimento. Portanto, serão dois processos: o tratamento clínico e a correção do erro. Caso contrário, a contusão voltará na certa, e cada vez pior.

Então, o que Djokovic precisa no momento é de tempo e de paciência. Seis meses de afastamento são uma tortura para um atleta profissional, mas Roger Federer, Rafael Nadal e Serena Williams mostraram que é possível para um tenista tão diferenciado como Nole retomar a carreira no mais alto nível.

Em tempo: muitos já me perguntaram se Djokovic pode pedir ‘ranking protegido’. Mas isso é totalmente desnecessário, como foi no caso de Federer. O pior que pode acontecer é o sérvio cair para o 15º lugar e isso garantirá com tranquilidade sua entrada em qualquer grande torneio até março. Vale lembrar que o ‘ranking protegido’ – quando se calcula a média do ranking do requerente nos três primeiros meses após a parada – serve apenas para o tenista contundido garantir a inscrição na sua volta (por 9 torneios ou 9 meses). O ‘RP’ não pode ser usado para determinar cabeças de chave.

Sede por recordes continua para Federer
Por José Nilton Dalcim
17 de julho de 2017 às 17:49

Perto dos 36 anos e de volta ao top 3 do ranking, Roger Federer já se habituou à chance de quebrar alguma marca ou estabelecer façanhas praticamente toda vez que entra em quadra. Novamente em excepcional forma, começa a tornar algumas de suas grandes marcas cada vez mais difíceis de ser batidas.

Nos Slam, além de ter agora quatro troféus acima de Rafael Nadal, soma sete finais a mais que o espanhol, 11 semis e 11 quartas sobre Novak Djokovic. A quantidade de vitórias também é muito superior, com 84 acima do sérvio. Suas séries consecutivas de finais, semis e quartas não sofrem qualquer ameaça.

E Federer pode fazer ainda mais no US Open. Será o tenista com mais Slam na carreira, deve superar Andre Agassi no número de vitórias no torneio e luta para se tornar o maior campeão da Era Aberta em Nova York caso consiga o hexa. De quebra, ainda poderá lutar pela liderança do ranking e também ampliar seus números excepcionais.

Veja a lista dos atuais principais recordes e façanhas do suíço por categoria e perceba que há muita coisa plausível de ser alcançada:

Grand Slam
– Recordes de títulos (19), finais (29), semis (42) e quartas (50).
– Maior número de vitórias (321) e de participações (70, com Santoro).
– Entre os tenistas com mais de 200 jogos, só fica atrás de Nadal em percentual de aproveitamento de vitórias (86,3% contra 86,9%).
– É lider absoluto em finais seguidas (10), semis consecutivas (23) e quartas seguidas (36).
– Ganhou sete finais seguidas (superado por 8 de Sampras), tem duas séries de 27 vitórias consecutivas (Djokovic chegou a 30).
– Lidera com 36 sets vencidos seguidos e 65 Slam disputados em sequência (Feli López está com 62).
– É o maior campeão de Wimbledon (8) e do US Open (5, com Connors e Sampras) e segundo na Austrália (5, atrás dos 6 de Djokovic).
– Ganhou cinco troféus seguidos em Wimbledon, igualado a Borg, e no US Open.
– Recordista em finais na Austrália (6, com Djoko) e Wimbledon (11). Está em segundo no US Open (7 contra 8 de Lendl e Sampras).
– É quem mais ganhou na Austrália (87) e Wimbledon (91), segundo em Paris (65) e terceiro no US Open (78, a um de Agassi).
– Tem recorde de vitórias seguidas no US Open (40) e segundo em Wimbledon (40) e de sets seguidos na Austrália (30) e em Wimbledon (34).
– Segundo mais jovem a completar o Carrer Grand Slam, aos 27 anos.
– Dois Slam diferentes vencidos sem perder sets (Australian-2007 e Wimbledon-2017). Borg e Nadal somam três.
– Único da Era Aberta a disputar todas as finais de Slam de um mesmo ano por três temporadas (2006-07, 2009) e todas as semis por cinco temporadas.

Carreira
– Chega a 93 títulos, um a menos que Lendl e a 16 de Connors.
– Fez 141 finais, 5 atrás de Lendl e 23 distante de Connors.
– Está em segundo em partidas partidas (1.358) e vitóris obtidas (1.111).
– Tenista que mais derrotou adversários top 10 (207).
– Líder em títulos na quadra sintética (63) e na grama (17). Empata com Nadal em quadras abertas (71).
– Maior vencedor sobre quadras sintéticas (687 jogos) e segundo em grama (164, a seis de Connors).
– Detém recorde de invencibilidade no sintético (56) e na grama (65).
– Maior invencibilidade contra top 10 (26 jogos)
– Maior número de finais disputadas e vencidas em sequência (24)
– Recorde de títulos (6), vitórias (52) e participações (14) no ATP Finals
– Lidera vitórias em torneios Masters 1000 (341) e é terceiro em títulos (26).
– Chega a US$ 104 milhões de premiação oficial e está US$ 2,5 mi atrás de Djokovic.
– Terceiro tenista a superar a marca de 10 mil aces desde que ATP iniciou contagem em 1991.

Ranking
– 302 semanas como número 1, sendo 237 consecutivas, marcas absolutas
– É quem mais figurou no top 2 (471 semanas) e top 3 (inicia a 628ª). Faltam oito para assumir a ponta também do top 4 e nove para o top 5. Está 48 semanas atrás de Connors como top 10.
– Terminou cinco temporadas como líder, um a menos que Sampras. Lidera com 10 no top 2 e 12 no top 3.

Desafio Wimbledon
O internauta Wendell Assis, que votou através do Facebook, foi incrivelmente preciso e cravou o exato placar da vitória de Federer sobre Cilic: 6/3 6/1 6/4. Em segundo lugar, ficaram outros dois únicos que palpitaram apenas oito games para Cilic: Victor Rolemberg França e Eric Magalhães. Os três devem enviar endereço completo para envio do tubo de bolas Spin. Parabéns!

Qual o limite de Federer?
Por José Nilton Dalcim
16 de julho de 2017 às 19:50

Há cinco anos, quando conseguiu reconquistar Wimbledon num grande esforço, parecia que o 17º Grand Slam era um número definitivo para Roger Federer. Afinal, ele já se aproximava dos 31 anos e veria Rafael Nadal recuperar sua melhor forma na temporada seguinte e depois lutaria contra o auge do domínio de Novak Djokovic, sem falar no crescimento de Andy Murray e nas beliscadas de Stan Wawrinka e Juan Martin del Potro.

Ele entendeu então que teria de mudar. Começou pela raquete, que hoje se prova um fator essencial, e passou por treinadores improváveis, como Stefan Edberg e Ivan Ljubicic. Reinventou-se, fez grandes exibições, mas nem assim conseguiu um novo Slam. O destino no entanto não o esqueceu. Foi preciso um problema médico com seu joelho para que ele tivesse de se afastar seis meses do circuito, período em que cuidou do físico, se adaptou perfeitamente à raquete e recuperou a alegria e leveza de jogar.

O Federer versão 2017 é certamente o melhor de todos que já vimos. Além do repertório ainda mais vasto, virou um jogador aplicado na parte tática, estável no plano emocional. Junte-se a isso seu estilo agressivo e um físico privilegiado para se ter um tenista difícil de ser batido até mesmo nas condições mais lentas do circuito de hoje. Roger nunca devolveu tão bem, usou tantas paralelas dos dois lados, encheu a bola de tanto topspin ou foi tão pragmático para construir pontos e se defender.

A pergunta obrigatória é: qual o limite de Federer? Estilo econômico, tênis moderno, pernas ágeis, nada o impede de jogar mais uma ou duas temporadas. Arriscaria a dizer que 2020 está totalmente a seu alcance. E se o fizer, sempre será candidato a ganhar mais títulos, mais Slam, principalmente quando pisar na grama ou numa quadra veloz. Dono de recordes e marcas de difícil superação até a longo prazo, a história permanecerá a seu alcance quase toda semana.

A final deste domingo teve pouca emoção, que pena. Cilic desperdiçou um break point no começo do jogo e de repente sumiu de quadra. Chorou no intervalo para o segundo set, pediu atendimento antes do terceiro e só então voltou a apresentar um tênis decente, porém muito distante do que vinha fazendo no torneio. Afirmou que a bolha no pé gerava tanta dor que não conseguia se concentrar, daí ser estranho ele ter demorado dois sets para cuidar do problema. Assim, Federer não precisou fazer nada de espetacular, exceto jogar seu tênis eficiente e ofensivo.

Pela primeira vez desde 2009, Federer ganha dois Slam na mesma temporada e a expectativa agora é por uma luta direta entre ele e Nadal pela liderança do ranking, algo que não acontece desde 2010. O que deve esquentar o US Open e talvez transformá-lo em outro Grand Slam mágico desta notável temporada.

Que sortudos somos todos nós.

A façanha de Melo
Num país em que quadra de grama é algo tão raro como político honesto, Marcelo Melo tem de ser muito enaltecido pela espetacular campanha em Wimbledon ao lado do polonês Lukasz Kubot. Os dois conseguiram chegar ao ápice do entrosamento, dividindo responsabilidades, grandes lances, resistência física e emocional para superar tantos duelos longos e tensos na campanha.

Duas coisas me deixam especialmente satisfeito. Ouvi críticas e senti um certo menosprezo quando ele chegou pela primeira vez à liderança do ranking, 18 meses atrás, como se não merecesse tudo aquilo. Girafa agora cala de vez as vozes dissonantes. Nada mais incrível e indiscutível do que chegar ao topo com um troféu desse quilate.

É honroso termos dois duplistas de sucesso num circuito tão competitivo. Melo e Bruno Soares nos deram quatro diferentes conquistas de Grand Slam na dupla masculina e quebram séries que pareciam perdidas no tempo. Melo interrompeu 51 anos de jejum em Wimbledon, assim como Bruno havia sido o primeiro a faturar três Slam numa mesma temporada desde Maria Esther.

Segundo profissional brasileiro com maior faturamento na história, já acima dos US$ 5,2 milhões, Melo prova que jogar dupla é também um ótimo e respeitoso caminho a se seguir.

Muguruza confirma
Ninguém ganha um título do tamanho de Wimbledon por acaso, mas é necessário dizer que Garbiñe Muguruza mereceu muito esta conquista. Desde a primeira partida, mostrou um estilo agressivo, aprimorou os voleios, jogou com coragem. Quando derrotou a número 1 Angelique Kerber indo 52 vezes à rede, ficou claro que estava pronta.

Muguruza representou aquela antiga qualidade, hoje um tanto perdida, de modificar técnica e tática ao mudar do saibro para a grama. Lição certamente aprendida dois anos atrás, então uma surpreendente finalista diante de Serena Williams. Tomara que novo aprendizado surja agora e evite o deslumbramento que viveu ao conquistar Roland Garros e perder totalmente o foco.

A final contra Venus só teve emoção no primeiro set. Depois que salvou dois set-points, Muguruza cresceu na confiança e Venus baixou intensidade, cometendo muitos erros. Curioso ver que uma espanhola volta a ganhar na grama justamente ao superar adversária de 37 anos, repetindo Conchita Martinez frente a Martina Navratilova. Coisas do tênis. Venus, sempre simpática, garantiu que vai tentar de novo.