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Nem Zverev, nem Kyrgios, mas Shapovalov
Por José Nilton Dalcim
31 de agosto de 2017 às 01:12

O buraco aberto pelas desistências de grandes estrelas não será preenchido pelos dois mais promissores nomes da nova geração. Alexander Zverev não aguentou a pressão e Nick Kyrgios mais uma vez sucumbiu a seus variados problemas físicos, e deixam o US Open muito mais cedo do que o esperado. Para compensar, o canhoto Denis Shapovalov deu outro show de competência e maturidade.

Zverev ao menos deixa a vaga nas mãos de outro novato, o croata Borna Coric, que há algum tempo não vinha mostrando capacidade para estar entre os emergentes. Mas eis que ele se encheu de motivação e fez talvez sua melhor partida em termos técnicos e táticos.

Conhecido por ser raçudo e resistente, Coric subiu um degrau com grande aplicação tática e ousadia. Antes de tudo, manteve a bola profunda no forehand instável do alemão e chamou Zverev para a frente, onde o alemão é claramente vulnerável. Mas Coric também ganhou 76% dos pontos com um primeiro saque eficiente, teve sucesso em 28 de 35 tentativas junto à rede e somou 31 winners e 44 erros, ou seja, tomou iniciativa.

Entrar tão bem cotado para um Grand Slam – nível de torneio em que ainda não se soltou – parece ter pesado demais para Zverev, que já havia feito uma estreia desanimadora. É difícil ao mesmo tempo dizer se Coric terá vida longa, uma vez que pega Kevin Anderson na sequência. Tomara que repita a grande atuação. Ele e Zverev, no entanto, precisam melhorar também o comportamento em quadra. Além de choramingarem em demasia, o tom que dirigem ao árbitro é um tanto desrespeitoso.

Shapovalov voltou a encantar aqueles que apreciam um tênis agressivo e ao mesmo tempo criativo. Seu backhand de uma mão foi consistente, o saque e o forehand dominaram totalmente o experiente Jo-Wilfried Tsonga e desta vez até os voleios do garoto canadense funcionaram muito bem. Aos 18 anos, ele joga com notável energia e confiança, não diminui o ímpeto ofensivo e mantém sangue frio mesmo quando faz bobagens. Enfrentará agora Kyle Edmund, de quem ganhou em junho na grama. Poderá ter depois Pablo Carreño ou Nicolás Mahut, ou seja, há chance real de cruzar com Marin Cilic lá nas quartas.

O longo dia teve ainda 30 partidas da primeira rodada em que o destaque negativo foi Kyrgios. Nada de quadril ou lombar, mas ombro direito. Lastimável o histórico de contusões de um tenista tão jovem, provável sinal de que não faz a preparação física e a prevenção adequadas.

Além dele, deram adeus precoce Fábio Fognini, Richard Gasquet e Pablo Cuevas na primeira rodada, mais Gilles Muller e Albert Ramos na segunda. Voltam à quadra nesta quinta-feira Dominic Thiem, Grigor Dimitrov, Juan Martin del Potro e Tomas Berdych, com destaque para Thiem diante do garotão sacador Taylor Fritz. Obviamente, a rodada tem também Rafa Nadal e Roger Federer, mas em compromissos pouco atrativos diante de Taro Daniel e Mikhail Youzhny.

A trajetória brasileira nas simples terminou mesmo na primeira rodada, com as quedas de Thomaz Bellucci e Thiago Monteiro. O cearense me parecia ter a maior oportunidade de todos e quase chegou lá, mas não soube aproveitar os vacilos de Malek Jaziri, que mistura bem as jogadas mas também erra muito. Bellucci deu pena, totalmente dominado pelo acrobático Dustin Brown. Resta mais uma vez torcemos pelas duplas.

Por fim, o feminino também teve dia longo. Já pela segunda rodada, Garbine Muguruza, Venus Williams e Petra Kvitova confirmaram, Sloane Stephens brilhou e Maria Sharapova sofreu até achar o saque e os golpes pesados diante de Timea Babos. Desse grupo todo sairá uma finalista. Muguruza tem Kvitova e provavelmente Venus no caminho e não é impossível cruzar com Sharapova na semi, ainda que haja dúvidas sobre o quanto a russa aguentará fisicamente.

O complemento da segunda rodada terá nesta quinta Elina Svitolina, Svetlana Kuznetsova e Aga Radwanska. Triste foi ver a despedida tão precoce de Eugénie Bouchard, com um jogo sem vigor. Como é duro perder a confiança no tênis.

Injustiça
Por José Nilton Dalcim
8 de agosto de 2017 às 23:54

É bem raro alguém perder sem merecer no tênis, mas acho que esse foi o caso de hoje na partida em que Rogerinho Silva foi eliminado logo na estreia de Montréal – seu primeiro Masters 1000 – para a sensação canadense Denis Shapovalov. E digo isso sem qualquer patriotismo. Bom, talvez tenha havido patriotismo sim, mas dos canadenses.

Saído de longas semanas no saibro, viajando às pressas para o Canadá, Rogerinho ainda achou o tempo perfeito da quadra sintética lenta e jogou três sets de excelente nível, diante de um adversário 15 anos mais jovem, totalmente apoiado pela torcida, no seu piso predileto e muito bem adaptado às condições.

O ponto essencial no entanto foi o erro do juiz de linha (e talvez do árbitro de cadeira), ao não ver que a bola de Shapovalov havia saído no fundo de quadra durante a troca de bolas que daria um quinto match point ao brasileiro no tiebreak do segundo set. O próprio público chegou a dar um “ohhh” no momento, mas Rogerinho acabou pegando de bate pronto e provavelmente não teve certeza suficiente para interromper o lance e pedir o desafio.

Imagino a frustração de Rogerinho quando soube da imagem que a própria TV canadense mostrou logo depois desse ponto, anotando que a bola havia saído por pelo menos dois dedos. Em seguida, cometeu dupla falta e perdeu o set. E antes que qualquer um condene o brasileiro por ter perdido os quatro match points anteriores, todo mérito tem de ser dado a Shapovalov, que foi incrivelmente valente nessa hora e acertou ace, voleio e até um backhand na paralela que raramente vinha conseguindo na partida.

No resto, só se pode tecer elogios ao paulista de 33 anos, que poderia atingir o top 60 com a vitória. Jogou solto, correu muito, bateu incríveis bolas do fundo, exibiu um backhand de uma mão muito mais eficiente e consistente do que o do adversário. Shapovalov sem dúvida tem grande potencial, embora eu o veja exagerando demais na postura agressiva, algo como se sentisse a obrigação de ganhar todos os pontos e fazer lances bonitos. Se consertar isso, a ascensão ao top 50 será inevitável e rápida.

Sua vitória na primeira rodada sela uma participação animadora da nova geração, que avançou com Borna Coric, Ernesto Escobedo, Heyon Chung e Jared Donaldson. As decepções foram poucas. A maior delas de Frances Tiafoe. Curiosamente, o comandante maior do trabalho de renovação da USTA, o espanhol Jose Higueras, afirmou neste fim de semana que considera Tiafoe o mais atlético e o de maior potencial dos garotos americanos, o que concordo totalmente. Vale observar que Donaldson já está nas oitavas depois de tirar Lucas Pouille e Benoit Paire.

E que mancada dos organizadores ao não promover a estreia de Roger Federer nesta terça-feira de aniversário. Diante de um oponente que teoricamente oferecerá pouca chance de surpresa, seria o clima perfeito para uma festa. A menos que eles tenham achado muito pouco simpático preparar o bolo como se dessem como certa a derrota do local Peter Polansky.

Quase perfeito
Por José Nilton Dalcim
16 de abril de 2017 às 22:36

Faltou manter mais dois serviços, ou então aproveitar a quebra no primeiro ponto do tiebreak. Muito pouco. Thomaz Bellucci encerrou sua inesperada participação no saibro de Houston com o vice. Poderia mais, sem dúvida, mas ninguém pode se queixar do seu físico ou de seu empenho.

Vindo da altitude do Equador, com mínimas horas de bate bola em Houston, Bellucci jogou cinco dias consecutivos, venceu quatro jogos em três sets, passou mais de 10 horas em quadra e ainda estava inteiro para um terceiro set duríssimo na final. Escapou de situações delicadas, virou sets que pareciam perdidos, manteve a cabeça fria, acertou na tática, raramente se mostrou aquele jogador apressado e ansioso que nos incomoda.

A derrota na final para Steve Johnson foi coisa de detalhe. Novamente, reagiu após perder o set inicial e teve a quebra na frente no terceiro set até o oitavo game. O norte-americano virou para 5/4, mas o brasileiro não se assustou e levou ao tiebreak. Talvez sua maior falha tenha sido se perturbar com a suposta crise de cãimbra do adversário, que sumiu do nada na hora do tiebreak. Coisas do tênis.

Campeões
O final de semana também teve a conquista de duplas de Bia Haddad no WTA de Bogotá. Um resultado que não significa muito para sua carreira, já que seu foco é total nas simples, mas que certamente ajuda o bolso e acima de tudo a confiança. Sem falar que até mesmo troféus de duplas de primeira linha é coisa pouco comum para o tênis feminino brasileiro. Vale lembrar que Bia disputou seu primeiro torneio no saibro em 2017.

Também muito legal o título do croata Borna Coric no Marrocos, vindo de larga desvantagem no segundo set – o experiente Philipp Kohlschreiber chegou a ter 3/0 antes de somar cinco match-points – e também no terceiro, saindo de 2/4 e vencendo cinco dos seis games decisivos.

Ainda vejo Coric como o menos espetacular da nova geração, comparado a Thiem, Kyrgios ou Zverev, mas ele ganha seu primeiro ATP aos 20 anos e depois de se submeter a cirurgia no joelho esquerdo em setembro, o que o forçou a começar a temporada só em fevereiro.

Monte Carlo
Embora seja o saibro mais lento da temporada europeia, Monte Carlo sempre é visto com grande expectativa porque uma boa campanha no centenário torneio se transforma em grande ânimo e respeito.

Esta edição é ainda mais relevante. Marca o retorno de Andy Murray e Novak Djokovic, tem Rafa Nadal em melhor ritmo e pode mostrar o que Stan Wawrinka ou Dominic Thiem teriam direito a almejar.

O desafio de Nole parece especialmente difícil, com possíveis duelos diante de Pablo Carreño (ou Fabio Fognini) e Thiem (ou David GOffin) antes de Nadal. Mas o próprio espanhol precisa de cuidados com Alexander Zvere e Roberto Bautista. Não acredito que Grigor Dimitrov incomode.

Murray também tem especialistas, porém deveria se sobrepor a Tommy Robredo, Albert Ramos ou Tomas Berdych em condições normais. Ai viria a semi diante de Wawrinka, que é o grande favorito no quadrante que tem Jo-Wilfried Tsonga, Pablo Cuevas e Lucas Pouille.

Todos os favoritos estreiam diretamente na segunda rodada.