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O físico decide
Por José Nilton Dalcim
12 de julho de 2017 às 19:00

Três das quatro partidas da reta final da chave masculina de Wimbledon tiveram um componente essencial: o físico. Novak Djokovic sucumbiu ao problemático cotovelo e nem completou dois sets, Andy Murray se arrastou na metade final com o quadril dolorido e cara de choro, Gilles Muller ficou sem pernas ao fazer seu 26º set (incluindo duplas) em 10 dias.

Não se pode nem de longe tirar o mérito dos vencedores. Tomas Berdych, por exemplo, fazia uma atuação muito decente, indo à rede, batendo pesado e usando até drop-shots. Sam Querrey esteve nas cordas e deveria ter saído derrotado em três sets, mas elevou o nível na hora necessária e calibrou o saque de forma notável nos dois sets finais. Marin Cilic precisou de todos seus recursos, obrigado a devolver firme o tempo inteiro, arriscar passadas, buscar bolas baixas. Ousou, fez saque-voleio e se valeu de estar bem mais descansado na parcial derradeira.

A desistência de Djokovic, minutos depois de ter solicitado assistência médica, como já fizera contra Adrian Mannarino, frustra quem esperava o reencontro com Roger Federer, principalmente porque o sérvio havia feito jogos consistentes na primeira semana, mostrava-se animado e não havia perdido sequer sets. Vale lembrar que o cotovelo está atrapalhando a vida de Nole há mais de um ano. Na grama, em que se golpeia a bola dezenas de vezes fora do local ideal, a chance de machucar antebraço e cotovelo se potencializa. Na entrevista, deu a entender que vai precisar de um tratamento longo e profundo, o que pode gerar uma ausência.

Murray, que mais uma vez não defende seu troféu em Wimbledon, também leva para casa dúvidas preciosas sobre seu futuro. Todo mundo sabe o quanto a contusão no quadril é grave e muitas vezes obriga cirurgia e atrapalha carreiras. Nem vamos lembrar aqui os casos de Guga Kuerten e Magnus Norman. Pode ser que o desgaste tenha sido em função do saibro, que Murray tanto acusa de lhe causar desgaste. Tomara.

Federer desfila na Central
Recuperado do resfriado e livre do fantasma do joelho, Roger Federer assombrou novamente com uma atuação magnífica na Quadra Central. Fez dois sets incrivelmente eficientes diante de Milos Raonic, em que agregou os dois pilares da grama: defesa sólida, seja na devolução de saque, seja nas passadas, e ataque volumoso, com primeiro serviço afiadíssimo, voleios oportunos e golpes de base profundos. Se seus maiores concorrentes sofreram com o físico, Roger flutuou.

Raonic fez o que podia. Foi à rede atrás do saque o tempo todo, sabedor que teria mínimas chances se ficasse atrás. Não desanimou mesmo com tanta bola no pé que levou e poderia sim ter levado ao menos o terceiro set, seu melhor momento na partida. Mas deixou escapar cinco break points, quatro no oitavo game, e uma vantagem de 3-1 no tiebreak. Federer então reagiu com direito a espetáculo e fechou a partida com lances magníficos, mostrando leveza nas pernas.

Não há dúvida que encarar Berdych na sexta-feira ao invés de Djokovic seja muito melhor. Tem 18 a 6 nos confrontos, com duas vitórias neste ano em torneios que levou o título (Melbourne e Miami). No entanto, existe agora um favoritismo absoluto do suíço para ganhar o octa e o 19º Grand Slam diante do currículo tão inferior dos concorrentes, o que nem sempre é um trunfo.

Cilic tem feito um grande Wimbledon e ainda leva histórico de 4 a 0 sobre Querrey, enfim em sua primeira semifinal de Grand Slam. O croata curiosamente ganhou três desses jogos sobre a grama e dois deles em Wimbledon, porém em cinco sets duríssimos. O americano não pode ser menosprezado. Embora ambos prefiram ficar no fundo da quadra atrás de bombásticos serviços, são jogadores bem completos e podem alternar com jogo de rede. Não por acaso, são bons duplistas também. Talvez Cilic sinta-se mais à vontade numa eventual final de tamanho peso, já que experimentou isso no US Open e foi muito bem.

Brasil torce por Melo
O tênis brasileiro pode ganhar duas boas notícias pelas mãos de Marcelo Melo. Se ele e Lukasz Kubot vencerem os cabeças 1 nesta quinta-feira, o mineiro retomará a liderança do ranking individual de duplas. De quebra, estará em sua segunda final de Wimbledon e poderá no sábado realizar seu maior sonho. Wimbledon é o único Slam em que jamais um brasileiro ergueu troféu entre os adultos. Todas as glórias vieram com Maria Esther Bueno.

Ele e Kubot já fizeram dois jogos duríssimos nesta edição, escapando da queda inesperada. São dois jogadores que adoram jogar na grama, um piso que confere poucas oportunidades e exige tremenda concentração. Kubot está devolvendo muito, Melo se mostra incrível junto à rede. E melhor ainda: a outra semifinal tem duas parcerias de currículo muito inferior.

Bruno Soares e Marcelo Demoliner também estão vivos e nas quartas de duplas mistas. As parceiras são ótimas duplistas, com destaque para Elena Vesnina, a mesma que levantou com Bruno o Australian Open do ano passado. Por fim, a juvenil Thaisa Pedretti sobrevive nas duplas e num piso tão difícil para seu estilo.

O clima esquentou
Por José Nilton Dalcim
11 de julho de 2017 às 20:04

Novak Djokovic não está satisfeito com Wimbledon. Ficou muito irritado com o adiamento da partida para a terça-feira, acha que o piso está imperfeito e diz ser favorável à extinção do quinto set longo.

Nole não deixa de ter razão. Ainda que seja razoável admitir um problema de segurança com o deslocamento do público para a mudança de seu jogo para a Quadra Central, havia tempo hábil para se organizar um esquema até mesmo depois da epopeia de Nadal e Muller. Afinal, ainda restavam 2h30 antes que o limite das 23 horas fosse atingido (acordo com a prefeitura exige que as partidas na Central terminem nesse horário).

Felizmente, o duelo contra Adrian Mannarino seguiu o roteiro imaginado, apesar de um segundo set apertado depois que o sérvio perdeu a vantagem de uma quebra. Na maior parte do tempo, Nole sacou bem e trabalhou os pontos para as mais diversas direções. Preocupou atendimentos para o ombro, mas ele garante que não assusta. Djoko terá de voltar à ação nesta quarta-feira e novamente foi escalado para a Quadra 1, sem teto. Felizmente, a previsão de chuva mudou.

Vamos a um resumo das quartas de final:

Murray x Querrey – Escocês tem larga vantagem de 7-1 e ganhou fácil em Melbourne deste ano. Americano no entanto requer cuidados porque gosta da grama e tem jogo bem adequado. Vitória garantirá número 1 de Murray, sua oitava semi em Wimbledon e 22º em Slam. Querrey tenta ser primeiro americano na semi desde Roddick, em 2009, e enfim disputar uma semi de Slam depois de 42 tentativas. Palpite: Murray em 4 sets.

Cilic x Muller – Duelo de estilos entre dois jogadores que podem jogar sem compromisso. Croata venceu os dois duelos já realizados – um deles dias atrás em Queen’s -, não perdeu sets e parece mais inteiro que Muller. Também tem experiência de um troféu de Slam a seu favor. Luxemburguês precisa optar pelo saque-voleio para economizar pernas e baixar a bola para dificultar o alto adversário. Palpite: Cilic em 4 sets.

Federer x Raonic – Promessa de melhor jogo do dia. Federer tem 9 a 3 nos duelos, mas perdeu os dois últimos, incluindo semi em Wimbledon do ano passado. São dois grandes sacadores. Raonic não tem ido tanto à rede como em 2016, melhor antídoto ao jogo de base muito superior do suíço. Federer disputa 100º jogo no torneio e busca 12ª semi em Wimbledo e 42ª de Slam. Canadense é o atual vice. Palpite: Federer em 4 sets.

Djokovic x Berdych – Uma das grandes ‘freguesias’ do tênis, Nole tem 25-2, com 12 vitórias seguidas, tudo porque as bolas retas não o incomodam e o deslocamento frágil e a falta de alternativas táticas do adversário são bens explorados. Um dos raros triunfos de Berdych foi na semi de Wimbledon de 2010. Nole tenta 8ª semi no torneio e 32ª de Slam, o que superará Connors. O tcheco tem seis semis de Slam e duas em Wimbledon. Palpite: Djokovic em 3 sets.

Sonhos em jogo
Quatro jogadoras de histórias, estilos e currículos muito distintos vão atrás de sonhos bem particulares na semifinal feminina de Wimbledon. Se a experiência falar mais alto, como é praxe na grama, é bem provável que teremos Venus Williams e Garbiñe Muguruza decidindo o título.

Aos 37 anos, Venus está em plena forma numa superfície em que usa seus melhores recursos. Dominou totalmente Jelena Ostapenko e já vislumbra a incrível façanha de voltar à final de Wimbledon depois de nove anos. Vai enfrentar Johanna Konta, que se supera a cada rodada. Ficou a dois pontos da derrota para Simona Halep, jogou praticamente com o segundo saque o terceiro set todo e nunca deixou de buscar os pontos. Uma tenista da casa não vence Wimbledon desde a centenária edição de 1977.

Muguruza bateu uma vez na trave em Wimbledon e hoje prova que consegue incrível adaptação à grama saindo completamente do seu estilo natural. Tem feito grandes exibições à base de um jogo agressivo e muita perna. Tem todo o favoritismo sobre Magdalena Rybarikova, a grande surpresa. Aos 28 anos e uma carreira cheia de percalços, leva para seus jogos o espírito lutador. Não faz tantos winners, bate por vezes de forma esquisita, mas tem deixado para trás as boas sacadoras, incluindo Karolina Pliskova.

Muller vence com 50% de winners
Por José Nilton Dalcim
10 de julho de 2017 às 20:34

O épico e histórico triunfo de Gilles Muller nesta segunda-feira no duelo de canhotos diante de Rafael Nadal, tira teima em Wimbledon que viu cada partida ser disputada a cada seis anos, tem números superlativos.

Foram quase 400 pontos disputados, que obrigaram cada tenista a correr por cerca de quatro quilômetros. Muller saiu de quadra com 95 winners de seus 191 pontos, uma estatística absolutamente incrível. Foi à rede 83 vezes, com 71% de sucesso, e precisou dar 212 primeiros saques e 79 de segundos. Tremendo esforço para seus 34 anos e um estilo que não tem muito de físico, dependendo muito mais da coragem e da boa mão.

Muller sabia o que fazer e seguiu a estratégia nos dois primeiros sets. Sacou muito, subiu sempre, deu mínimo ritmo ao espanhol. Rafa demorou para achar seu melhor tênis. Quando obteve enfim a primeira quebra do terceiro set, se soltou. Passou a sacar cada vez melhor, bateu seu recorde pessoal com 23 aces, acertou bolas incríveis da base. Lutou e vibrou.

Parecia impossível que Muller aguentasse a sufocante reação de Nadal no quinto set, público claramente ao lado do bicampeão. No entanto, foi Gilles quem esteve quase o tempo todo mais perto da vitória, mostrando notável tranquilidade e determinação tática. Não fosse a coragem de Nadal para sair do buraco – foram quatro match-points, cinco 0-15, outro 0-30 e um 15-30 – e o jogo teria acabado muito antes.

Curioso notar que Muller despontou para o circuito quase uma década atrás, quando atingiu as quartas do US Open de 2008 vindo do quali. Mas não embalou. Sofreu séria contusão no cotovelo em 2013 e hoje conta que aproveitou a longa parada para treinar a parte física. E, garante, isso teria feito a grande diferença. Sentindo-se mais preparado, iniciou a escalada. Entrou enfim para o top 50 em 2015, fez duas finais de ATP no ano passado e encontrou seu melhor tênis nesta temporada, com títulos em Sydney e Hertogenbosch e lugar no top 30.

Pai de dois filhos, ele agora enfrenta Marin Cilic, para quem perdeu dias atrás na semi de Queen’s em jogo duro. O croata está embalado, atropelou Roberto Bautista, segue sem perder sets e sonha com a primeira presença nas semis de Wimbledon.

Murray e Federer confirmam
Enquanto isso, lá na Central, Andy Murray e Roger Federer cumpriram a obrigação. Ambos perderam serviço e tiveram alguns altos e baixos, porém a diferença de consistência sobre Benoit Paire e Grigor Dimitrov é enorme.

Respirando ao ver Nadal cair mas ainda sob risco de perder o número 1 caso Novak Djokovic seja campeão, o escocês encara um sempre perigoso Sam Querrey, que venceu cinco duros sets sobre Kevin Anderson, enquanto Federer reencontra Milos Raonic, o homem que o tirou na semi do ano passado. Murray tem 7 a 1 sobre Querrey, o que garante certo conforto, e Federer lidera 9 a 3 sobre Raonic, tendo perdido as duas últimas.

Djokovic foi prejudicado pela demora da rodada e terá de jogar contra Adrian Mannarino na terça. Se cumprir o esperado e liquidar sem sustos, o adiamento não fará muita diferença, já que Tomas Berdych se esforçou por cinco sets diante de Dominic Thiem e é um dos maiores ‘fregueses’ de Nole, com 25 derrotas em 27 jogos.

Cai a número 1
Garbine Muguruza tirou Angelique Kerber da liderança do ranking. E que belíssimo jogo. A espanhola buscou a rede o tempo todo, a alemã fez verdadeiras mágicas. Muguruza encara nesta terça-feira Sveta Kuznetsova, outra que se defende muito bem.

Agora, Simona Halep só precisa derrotar Jo Konta para assumir a ponta. Bem, ‘só’ é força de expressão. A britânica se supera a cada rodada, apoiada no público. É mais um desafio para a romena, que só dominou Vika Azarenka depois de estar 2/4 atrás no primeiro set.

Outro duelo gigante envolverá Venus Williams e a estrela ascendente Jelena Ostapenko. Pancadaria à vista. Quem passar de Muguruza e Kuznetsova, faz semifinal diante das surpresas: Magdalena Rybarikova ou CoCo Vandeweghe. Não pensem que será tarefa fácil.