A chance de Kyrgios
Por José Nilton Dalcim
19 de agosto de 2017 às 00:28

Pelo terceiro Masters consecutivo, o Big 4 não levará o título. Culpa de Nick Kyrgios, que se aproveitou de um dia fraco do futuro número 1 Rafael Nadal para de novo se candidatar a sua primeira grande final da carreira. Tomara que Kyrgios tenha se inspirado nas façanhas recentes de Alexander Zverev.

O polêmico australiano só teve adversários exigentes em Cincinnati, e prova mais uma vez que se dá muito bem com os pisos mais velozes, tendo dominado David Goffin, Alexander Dolgopolov, Ivo Karlovic e por fim Nadal.

A vitória desta noite teve, é verdade, um espanhol abaixo do normal. Foram 26 erros, metade deles de forehand, sem falar naquela postura de esperar o saque quatro metros atrás da linha. Mas é preciso elogiar a postura de Kyrgios, que jamais se mostrou apressado. Trocou bolas, arriscou alguns winners, fez lances geniais e especialmente sacou muito bem, a não ser no finzinho do segundo set, quando provavelmente bateu a ansiedade.

Agora, ele enfrenta o melhor tenista de Cincinnati… David Ferrer! O veterano espanhol, que já havia dado trabalho a Roger Federer em Montréal, chega à semifinal de Cincinnati com um tênis exuberante.

A partida contra Dominic Thiem foi um exemplo perfeito de sua nova postura. O espanhol de 35 anos e 1,73m mesclou um sólido jogo de base – foram 12 erros não forçados diante de 33 do adversário -, com uma postura agressiva. Assim como havia feito diante de Federer, agrediu com paralelas e iniciou quase sempre o ponto já no backhand do austríaco.

Com isso, o jogo que deveria ser uma batalha de fundo de quadra teve apenas sete lances em que os tenistas trocaram mais de cinco bolas. Ferrer voltou também a mostra agilidade na transição à rede e ganhou todos os 11 pontos com voleios.

Acima de tudo, é preciso louvar a determinação de um jogador com evidentes limitações físicas perante os gigantes da atualidade, mas que usa a inteligência tática para achar caminhos. Mesmo tendo colecionado resultados dolorosas – chegou a Cincy com 18 vitórias e 16 derrotas na temporada – e a queda vertiginosa para o 46º lugar, ele ainda encontrou motivação para buscar novas armas e ajustar seu jeito de jogar.

A outra semifinal também é inesperada, fruto em boa parte do esvaziamento do torneio. Mas é muito bom que Grigor Dimitrov aproveite uma rara chance de atingir uma decisão desse porte, ainda que vá ter certamente enorme trabalho com o saque afiadíssimo de John Isner. Com a campanha em Cincinnati, Dimitrov voltará ao top 10 e automaticamente estará entre os oito principais cabeças do US Open.

Ao mesmo tempo, a chave feminina mantém o duelo pelo título e pela liderança do ranking, agora entre Karolina Pliskova e Simona Halep. A tcheca teve rodada dupla com horários apertados e fez duas grandes partidas nesta sexta-feira, especialmente contra Carol Wozniacki. Enfrentará agora Garbine Muguruza, que não tem chance de sonhar com o número 1 nesta semana mas, em caso de título, entrará na briga durante o US Open.

Halep por sua vez teve alguns altos e baixos, ficando um tanto claro que o piso mais veloz de Cincinnati é um problema. A romena de novo só depende de si para chegar ao topo do ranking. Para isso, terá de passar pela embaladíssima Sloane Stephens neste sábado. A americana, além de contar com a natural torcida, faz sua segunda semifinal seguida. Que retorno.

No topo do mundo outra vez
Por José Nilton Dalcim
14 de agosto de 2017 às 23:23

Não foi certamente da forma que ele gostaria, mas Rafael Nadal concretizou o retorno à liderança do ranking nesta segunda-feira ao ver Roger Federer confirmar a já esperada desistência de Cincinnati. Pena não haver a luta direta pela posição mais nobre do tênis, ainda mais entre dois ícones do esporte.

De qualquer forma, a quarta ascensão de Nadal ao número 1, três anos depois de passar o bastão, é uma resposta gigante àqueles que não acreditavam mais na sua capacidade de recuperação na carreira. Foi assim também em 2010 e 2013, mas desta vez parecia ainda mais difícil reagir depois de decepcionantes atuações, crueis abandonos, palavras duras consigo mesmo.

Muitos irão dizer que a volta à ponta é circunstancial. Não deixa de ser. Realmente, 4.680 de seus 7.555 foram obtidos no saibro, o que são quase 62%. Houve também a queda vertiginosa de Andy Murray, a longa fase instável de Novak Djokovic e o abandono de Federer ao saibro. No entanto, quase sempre foi assim. Murray foi muito beneficiado por algo semelhante no ano passado, Djoko só teve um real adversário entre 2015 e 2016, Federer contou com a baixa de Nadal e Nole em 2012 para ficarmos em alguns exemplos recentes.

Numa chave esvaziada, onde sete dos top 10 estão fora, Cincinnati pode ser ótima chance para Nadal ganhar terreno. A distância para Murray e Federer está apertada, com pouco mais de 300 pontos, nada difícil de se recuperar no US Open.

De maior candidato ao número 1, Federer se transforma em grande incógnita. Mesmo sem se conhecer a real gravidade da contusão nas costas, todos sabemos que o tratamento não é rápido e que o suíço depende demais do saque afiado para um bom desempenho. Para complicar, um Grand Slam exige no mínimo três sets toda rodada, um desgaste que só aumenta conforme se avança na chave. Sem falar que, caso Murray volte, ele será cabeça 3 no US Open, o que pode antecipar o duelo com Nadal para a semi.

O quadro todo portanto se mostra favorável ao canhoto espanhol, que agora poderá jogar com peso muito menor nos ombros. Nem tio Toni poderia imaginar algo tão bom assim ao se chegar a Cincinnati.

Zverev vira ameaça
Por José Nilton Dalcim
13 de agosto de 2017 às 22:57

Roger Federer não ajudou, e a final de Montréal acabou sendo um tanto frustrante quanto à competitividade que se esperava. Alexander Zverev jogou sério, entrou em quadra decidido a tomar conta dos pontos, usar muito ângulo e forçar o saque. Fez tudo direitinho, não se assustou com as bolas baixas e fechou uma semana que começou com um tremendo susto e três match points evitados lá na sua primeira partida.

O alemão amadurece com rapidez. Está com um jogo de base muito sólido, o saque ajuda demais, não se apavora diante da pressão e consegue produzir tanto num piso lento como numa quadra mais veloz. Ganhar dois Masters não é apenas notável em si, mas também por ter acontecido no espaço de três meses, em dois pisos distintos e em cima de Federer e Novak Djokovic. Isso diz muita coisa.

Zverev é agora o terceiro a somar mais na temporada, com 4.175 pontos, e isso o deixa a 3 mil de Rafael Nadal e Federer. É muito? Sim. Mas, com sua ótima adaptação ao piso duro e as incógnitas em cima dos dois concorrentes, não parece tão impossível entrar na briga pela ponta ainda em 2017.

Federer jogou mal, isso ficou evidente. Sacou 48% no primeiro set e empurrou até segundo serviço no outro set. Costas, provavelmente. Ele falou em dores e isso talvez explique suas atuações inconstantes da semana e meros oito winners nesta final. Colocou em dúvida a ida a Cincinnati, poupando-se para o US Open. Talvez seja o mais sensato.

Expectativa
O circuito muda imediatamente para o piso bem mais rápido de Cincinnati e obviamente que a expectativa é saber se será Federer ou Rafael Nadal quem assumirá a liderança do ranking. O jejum do suíço vem desde novembro de 2012, o do espanhol desde julho de 2014. Como Federer nem sabe se irá jogar, parece outra vez nas mãos de Rafa.

O sorteio indicou dois adversários de respeito para Nadal logo nos primeiros jogos: Richard Gasquet e Gilles Muller. A terceira rodada pode ter também um oponente agressivo, desde Jo-Wilfried Tsonga até Kevin Anderson ou Nick Kyrgios. Quem sobreviver, deverá fazer semi contra Kei Nishikori, que parece o mais gabaritado num quadrante que tem Dominic Thiem e Sam Querrey.

Federer depende unicamente de si para recuperar o número 1 e não parece ter caminho duro diante de Diego Schwartzman ou Karen Khachanov na estreia, nem depois com Jack Sock, Grigor Dimitrov e Tomas Berdych (ou Juan Martin del Potro, primeiro adversário do tcheco). Mas como estarão suas costas? A semi complica mais, principalmente porque ali poderá estar novamente Zverev. O alemão é o nome mais forte do setor, ainda que seja preciso cuidado com John Isner e Milos Raonic em pisos mais velozes e já tenha se declarado bem cansado após Washington e Montréal.

Federer ganhou Cincy sete vezes, entre 2005 e 2015, e Nadal venceu no seu mágico ano de 2013, superando o suíço de virada nas quartas. O atual campeão Marin Cilic desistiu e deve ser superado por Zverev e Thiem no ranking. O vice Andy Murray dará adeus à liderança e deve cair direto para o terceiro lugar, a menos que Federer desista.

Brasil em Cincy
Bia Haddad Maia garantiu o tênis brasileiro nas chaves de simples de Cincinnati. Depois de adiar duas vezes sua volta às competições devido a um desconforto no ombro esquerdo, a canhota paulista foi muito bem nos dois jogos do qualificatório, não perdeu sets e terá direito a disputar mais um grande torneio na temporada.

A adversária é dura: a ‘baixinha’ Lauren Davis, quase 30 centímetros menor que a brasileira, mas que ocupa o 34º lugar do ranking e ganhou um WTA sobre quadra dura em janeiro. Caso consiga a vitória – e um bom saque ajuda muito no piso mais veloz de Cincy -, Bia terá um desafio muito especial e enfrentará a campeã de Wimbledon Garbiñe Muguruza.

Svitolina mira o 1
O domingo viu a vitória da ucraniana Elina Svitolina em Toronto, seu segundo grande troféu do ano, em cima de Carol Wozniacki. Agora líder do ranking da temporada, Svitolina ganhou nada menos do que todas as cinco finais que disputou em 2017. Ao menos tempo, Wozniacki perdeu as seis decisões que participou. Que coisa.

O jogo foi um tanto curioso. As duas tenistas trocaram quatro quebras ao longo do primeiro set e tudo parecia indefinido até o 4/4. Svitolina então se favoreceu do serviço sempre frágil da adversária e daí em diante foi um passeio.

Ao atingir um inédito quarto lugar do ranking, Svitolina passar a ter chance real de brigar pela liderança. Aparecerá nesta segunda-feira apenas 80 pontos atrás de Angelique Kerber, atual vice de Cincy e campeã de US Open; menos de 500 de Simona Halep e a 1.290 de Karolina Pliskova, que defende agora o título de Cincy e a final do US Open. Vai ter briga, e das boas.